Bravo!! [Elyandria Silva]

Posted on 04/02/2020

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Aos poucos as poltronas vão sendo preenchidas, uma a uma, formando um cenário de cabeças expressivas, com cabelos de cortes e cores diferentes, com movimentos que mudam a cada segundo. Os murmúrios se misturam, luzes de celulares se acendem vez ou outra, aguardam mensagens, ligações, guardam lugar para alguém que vai chegar. Tem moça magrinha com saia rodada, tem rapaz novo com barriga de cinquentão viciado em cerveja, tem senhora que exagera no salto, homem bonito e elegante, enfim, tem muita gente, de todo o tipo: transformam-se em silhuetas de cera quando as luzes se apagam. A menina ao meu lado desaparece, os que estão à frente e atrás também. Em pouco tempo o palco é um cortejo luminoso de sons. As mãos, o instrumento, a luz, as notas, o som escorre invisível pelo ar, percorre o caminho do silêncio, chega aos ouvidos empoeirados pelos barulhos que a cidade impõe durante todo o dia. E assim, a cada concerto, todos são um e cada um de nós é o todo, sem diferenças, iguais, na mudez desamparada e surda que abraça a paz trazida pela música.

Durante treze dias essa cidade foi só música, de palmas não contidas, de felicidades sonoras batizadas de sinfonias que desafiam outras belezas do mundo. Sempre pensei que Jaraguá do Sul só pudesse ser contada em palavras, em crônicas, em poesia, mas não, no mês de janeiro ela também é contada em música, é recontada por orquestras e por maestros, por músicos, é embalada por acordes. Nos outros 11 meses os sons voltam à sua normalidade habitual, carros, buzinas, sirenes e o trem. Outro dia o trem parou. Uma parte da cidade parou junto. Inerte, desmaiado, lá ficou atrapalhando tudo, como uma centopeia de ferro. Foi xingado sem ter culpa. Despertou pena o barulhento que todo dia passa e desfila sem pedir licença. Há coisas que deixariam Jaraguá do Sul sem vida se não existissem, o trem é uma delas. O Festival de Música de Santa Catarina – FEMUSC, no verão, é outra.

Violinos, pianos, violoncelos, flautas, saxofones, oboés, harpas, violões são personagens de espetáculos que falam sem dizer nenhuma palavra, que atravessam as ruas sem sair do lugar, que preenchem os desbotados das esquinas. Em As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, o personagem Marco Polo descreve para Kublai Khan os lugares pelos quais passou: “Em todos os pontos, a cidade oferece surpresa para os olhos…” “Milhões de olhos erguem-se diante de janelas pontes alcaparras e é como se examinassem uma página em branco”. Aqui também os olhos e os ouvidos se surpreendem e se Marco Polo passasse por Jaraguá do Sul no mês de janeiro ficaria surpreso.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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