As Mulheres Polonesas Além do Tejo [Marcelo Tacuchian]

Posted on 01/02/2020

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Tenho certeza de que já cruzou com aquele sujeito chato que, ao você narrar sua última viagem, ele, com o conhecimento de um viajante interplanetário, lhe pergunta se não foi a determinado lugar ou experimentou tal coisa. Aposto que já passou por uma situação que lembra o seguinte diálogo fictício:

— Minhas férias em Portugal foram ótimas!

— Mas você provou aquele bacalhau ao molho de carne no restaurante do Zé naquela rua sem saída da freguesia de Ramalhal, em Torres Vedras?

—  Bacalhau ao molho de carne? Torres Vedras? Não fui lá não.

— Não? Sério!? Então sinto dizer, mas você não conheceu Portugal. Esse bacalhau é simplesmente im-per-dí-vel!!! (com pontos de exclamação a gosto).

Como não quero ser o estraga-prazeres da estória acima, dou uma dica mais realista do que o restaurante do Zé em Torres Vedras para você que deseja fugir das multidões de Lisboa e Porto.

Visite o Alentejo.

Talvez já saiba que essa região nos remete a paisagens rurais, hospedagens charmosas e ótima comida e vinhos. No entanto, recentemente, lá estive para um passeio de fim de semana com amigos e pude descobrir o Alentejo das praias. Fiz uma caminhada pela trilha dos pescadores apinhada por todas aquelas paisagens de capa de revista de turismo. O curioso é que nada disso é vendido como Alentejo para o público externo que, ao pensar em praias, desce direto para o Algarve.

Voltando ao meu descobrimento, fiquei baseado numa cidade chamada Vila Nova de Milfontes. Os locais não se envergonham de dizer que é a cidade das três mentiras: não é uma vila, não é nova e muito menos tem mil fontes. Os nomes em Portugal ainda reservam muitos mistérios.

No hotel, com a Praia da Franquia como cenário, uma grande surpresa. O pequeno almoço estava lotado de mulheres louras de ombros enormes e coxas do tamanho do meu tronco. Obviamente estrangeiras, pois este não é exatamente o biotipo do Alentejano típico, um pouco mais roliço e baixinho, com suas barrigas felizes pelas delícias do porco preto local.

Voltando àquelas mulheres atléticas e seus uniformes alvirrubros, falando uma língua em que só se ouviam consoantes, num som chiado parecido com o estereotipado sotaque carioca, logo descobri que era a equipe feminina de canoagem da Polônia.

Fugiam do frio insuportável de seu país para treinar no frio suportável de Portugal. Depois de dizimarem todo o estoque de ovos mexidos (que, em polonês, é traduzido como jajezcnica  e eu escutava algo como “xaxenxnica”) do hotel, saíram para a praia, levando suas canoas como quem carrega uma bolsa a tiracolo e foram para a água praticar seu esporte de eleição.

Algumas muitas horas depois, com minhas pernas algo maltratadas pela caminhada, rezando para que ainda tivesse sobrado alguma comida na cidade, voltei a Milfontes e, felizmente, as polonesas ainda domavam o mar invernal com a mesma tranquilidade que eu e você passeamos entre gôndolas de um supermercado.

Durante o tardio almoço, ajudado pelo encorpado vinho alentejano, confesso que desejei encontrar alguém que me revelasse ter conhecido o Alentejo. A conversa tomaria o seguinte rumo:

— Você já visitou o Alentejo?

— Sim. Conheci Beja, Évora e provei os ótimos pratos da região.

— Mas não passou por Vila Nova de Milfontes?

— Por acaso, dormi uma noite lá sim. É uma graça de cidade. Lindas praias, não é?

— Mas conheceu-a durante a época do treinamento da equipe nacional feminina de canoagem da Polônia?

— Não.

— Então sinto muito em dizer que você não conheceu o verdadeiro Alentejo!!!

— Que pena. Vou ter que voltar outra vez então.

Em seguida, a pessoa vira as costas e eu fico curioso porque vários amigos nunca voltam a me procurar para obter mais dicas sobre Portugal.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

Posted in: Crônicas