Elogio do banheiro [Mariana Ianelli]

Posted on 25/01/2020

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Isto seria um elogio de bandeja à escatologia corrente, não fossem tantas outras coisas que podem acontecer dentro de um banheiro. Com a luz apagada, o primeiro verso de um poema na cabeça debaixo do chuveiro. O detalhe vivo de um quadro de Bonnard. Terríveis óperas domésticas. Vinte minutos em flor de lótus sobre um chão de azulejos. Longas e lentas redescobertas do corpo e do rosto no espelho. Um coração disparado de medo. Uma cena de Hitchcock. Uma cena de Bertolucci. Tem também a nossa velha curiosidade com o banheiro da casa alheia, o íntimo mais íntimo do outro em armarinhos espelhados e brancas gavetas. Henry Miller, que era mestre no saber das atrações do recinto, tinha seu banheiro especialmente decorado para os visitantes se perderem ali. É o que vemos no pequeno e delicioso documentário de 1975, de Tom Schiller: as paredes tomadas de fotos de todos os tipos, “do budista às putas”. Henry Miller se detém numa imagem e outra, vai contando a história delas. Ali a foto de um de seus escritores prediletos, Blaise Cendrars, lá no alto uma atriz chinesa, um monge, um quadro de Gauguin, o castelo de Neuschwanstein. Passamos mais de meia hora ali dentro e parece tão pouco tempo para o tanto que há para divagar, de um sorriso satisfeito de Buda às figuras fantásticas de Bosch, da filosofia de Jung em símbolos gravados numa pedra a uma foto de um menino debochado, lendo “Sexus”. Viagens dessas que fazemos a portas fechadas, completamente à vontade, sem gente chamando do lado de fora, ou, quando muito, com alguém no olho da fechadura, um fetiche à moda de Tanizaki, outro escritor, aliás, estampado numa das paredes do banheiro de Henry Miller.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre (ed. ardotempo, 2013). Depois, escreveu Entre imagens para guardar (ed. ardotempo, 2017), também de crônicas. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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