Carnaval precoce [Madô Martins]

Posted on 24/01/2020

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Minha cidade tem a peculiaridade de realizar sua Folia de Momo uma semana antes do Carnaval propriamente dito. A justificativa oficial é que os carnavalescos daqui também querem desfilar ou atuar como jurados nos sambódromos mais badalados, sem desfalcar as escolas locais. Assim, apresentam-se precocemente, ficando livres para participar de festas maiores. O público não reclama, porque o modelo inusitado possibilita a todos estar na arquibancada municipal nos dois dias de apresentação dos grupos “de acesso” e “especial” da Baixada Santista e, na semana seguinte, viajar para outras cidades ou apreciar os detalhes dos carnavais carioca, paulista e baiano pela tevê.

Já fui foliã fanática: menina, frequentava com as primas todos os bailes no clube preferido, tanto nas matinés quanto nas soirées, dormindo pouco, ficando rouca de tanto cantar ao som altíssimo das orquestras, me resfriando por deixar o salão molhada de suor e enfrentar o frio das madrugadas, na hora de ir embora. A casa, naqueles longos dias, vivia coberta de confetes e os cosméticos da mãe e da tia nos embelezavam, junto com as fantasias. Estas, secavam no varal até o dia seguinte e eram quase trapos, no baile final.

Herdei o gosto do pai. Lembro de assistir aos desfiles de rua sentada em seus ombros, para poder enxergar a beleza dos carros alegóricos e roupas das alas. Adolescente, participava com o namorado do corso, desfile de carros (ele já guiava) em que havia batalhas de confete, serpentina, água e farinha, ovo, lança-perfume, sangue-de-diabo…

Adulta, ia com o noivo (o mesmo) e a turma da faculdade para outro clube, todos quase sempre vestidos de havaianos. Mãe, levava o filho aos bailinhos da tarde, acompanhando-o pelo salão e providenciando, além da fantasia, água, ventarola, salgadinhos, confete, serpentina, martelinho.

Mas o melhor e mais autêntico de tudo sempre ficou com as Escolas de Samba. Como jornalista, fiz a cobertura dos desfiles por vários anos. Era emocionante, antes da entrada na avenida, visitar a concentração e sentir o corpo vibrar com a bateria, assim como me comovia ouvir de perto as vozes das cabrochas e passistas entoando o samba-enredo com toda garra.

Houve um ano em que fui ao barracão de uma delas, servindo de guia turística para um amigo vindo de Londres. Era noite de ensaio e ele, muito cordial, logo se enturmou com os carnavalescos. Acabamos conhecendo a sala de troféus da agremiação e os croquis das fantasias que seriam usadas no desfile, normalmente, guardadas a sete chaves.

Hoje já não vibro com tudo isso, especialmente porque as sedes das escolas mudaram para longe (ouviam-se os ensaios desde as casas), o local do desfile idem e nossa animação é defasada das demais – fake, talvez para combinar com a realidade atual.

Já coroaram o novo Rei Momo e nomearam a corte; muita gente dormiu no local de venda dos ingressos e convocou familiares para comprar mais alguns, já que são limitados a poucos por pessoa. As arquibancadas ficarão lotadas, mesmo fora de época. Turistas não faltam por aqui, para aproveitar toda possibilidade de lazer. Sambistas tradicionais da cidade e amantes do samba também comparecerão. Afinal, esta ainda é a festa mais popular, alegre e democrática do país. E estamos todos precisando relaxar…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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