Utopia [Drica Muscat]

Posted on 22/01/2020

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Hoje acordei e caminhei pesada até o sofá onde meu gato dormia, para fazer carinho nele. O vento lá fora estava muito forte, uivando apressado, e me perguntei: e se o sol virasse lua, e os lobos começassem a voar? O gato me olhou com ternura, sabendo que a realidade só é possível quando sonhamos enquanto é dia.

Li suas mensagens, e pensei em me vestir das histórias que tenho em mente, mas não acredito que ao fazê-lo eu seria bem aceita. Deve ter relação com o que você falou sobre ser mulher.

Uma parte minha diz que seria muito banal escrever sobre o que eu tenho visto nos últimos anos, mas outra parte diz que seria igualmente injusto deixar essa história morrer sem mãe.

Saí de casa.

Sei que pena não é um sentimento bom, mas foi o que me veio à mente enquanto caminhava pelas ruas de Paris e via a decoração de Natal ainda lá, resistente, bem no meio de janeiro. As guirlandas, pobrezinhas, não sabem que a festa já acabou, e que suas horas estão contadas para voltarem pra dentro de caixas apertadas, e ficarem lá até o fim deste ano, mas prefiro não falar de nada triste.

Por isso vou falar de outras coisas.

Para mim o mar é segredo de anjos, que sopram respostas em ondas-bentas maternais; areia é tempo disfarçado de infinito; cada fim de tarde vivido fortalece os sobreviventes, e amizade é permissão para continuar sendo exatamente assim.

Falando em amigos, me pergunto se você come legumes, se às vezes liga a televisão, de qual livro não gosta, e se ainda conversa com os que permanecem vendados, dizendo que o dia está lindo enquanto a vida dos outros escurece um pouco mais.

Talvez quando eu acordo e caminho até o sofá para fazer carinho no meu gato, esteja tentando fazer carinho em mim.

Graças a você eu hoje amanheci ouvindo o Vento uivar e voar e levar e, ah, te quero tão bem.

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(Para minha Amiga Aline Bei)
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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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