Fotossíntese [Rubem Penz]

Posted on 17/01/2020

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Vocês não sabem o tédio que é ficar aqui na portaria, olhando para lá e para cá, dias e noites, noites e dias. Diz que sou importante, algo como ser minha simples presença uma espécie de inibição para malfeitos em geral. “Impõe respeito”, falam coisas desse tipo. Porém, no mais das vezes, sinto-me menor do que o vaso de plantas. Vidinha besta, a minha.

Cá estou para nunca precisarem de mim. Afinal, acionar-me significa problema. Ou alguém invade, ou agride, ou se acidenta. Ninguém quer que isso aconteça, nem aqui na frente do prédio, nem em lugar nenhum. Pois até isso tem: acontece algo longe, mas passam por aqui e querem saber de onde veio e para onde foi. Aí recorrerão a mim para eu dizer. Não reclamo: isso até dará à minha vida algum sentido.

Mas é exceção. Coisa rara. Raríssima. No mais das vezes fico olhando para o vazio, para o deserto, para o estável. Seu Gervásio sai pela manhã cedo, não sem antes abrir o histórico do telefone para conferir as últimas pornografias – e dá uma ajeitadinha nas partes antes de ganhar a calçada. Dona Jurema, religiosamente, passeia com Toby três vezes ao dia para o batismo das árvores. Ana Lúcia só anda de aplicativo e é muito impaciente – faz quase uma vala no piso em seu pra-lá-e-pra-cá. É isso que vejo.

Robson nunca deixa de dar uma volta no quarteirão antes de acionar o portão da garagem, não importa a hora. Rômulo nunca fez isso na vida – e olha que tem uma rotinazinha de horários bem previsível. Eu é que sei! Silene vive trocando de carro, Grace só pede comida pronta, Sidney briga com a namorada. Sueli, incansável, fica diante das grades, no lado de dentro, de chambre, enquanto espera Carol descer da garupa da motocicleta do Beto todos os dias de semana, às onze e meia.

A folhagem, uma vez por quinzena, recebe a atenção de um pessoal uniformizado e carinhoso. Remexem na terra, limpam as folhas, põem adubo. No dia a dia, é a dona Jurema quem dá uma aguada, enquanto impede o Toby de mijar o vaso. Vida melhor do que a minha aqui, “impondo respeito”. Tudo bem, tudo bem. Um dia vem a fama. Minhas imagens aparecerão no Fantástico, registrando a passagem de um facínora, um serial killer, um estuprador. Ou o Toby cairá da janela (aí já estou sendo maldoso). E a foto do instante estará nas primeiras páginas, a síntese de minha existência.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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