Porcaria de crônica [Cássio Zanatta]

Posted on 14/01/2020

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Hoje vou porque vou escrever uma porcaria de crônica. Daquelas que, se eu tivesse o mínimo de vergonha na cara, nunca mais sairia de casa. De levar vaia, tomatada e esculacho em público.

Não que seja novidade: já escrevi (pior: publiquei) algumas porcarias, um pouco carregadas nas melosidades ou com pretensões de me levarem a sério. Poderia aqui dar algumas desculpas esfarrapadas (vejam que uma porcaria de crônica adora um lugar comum), mas prefiro pedir paciência aos leitores pelo tempo desperdiçado.

Admiradores dirão: “também não é assim”; detratores dirão: “Não falei?”. E a maioria nada dirá por não haver lido, o que neste caso será sorte minha.

Já na primeira linha, haverá, claro, um passarinho. Estou em dúvida se será azul claro ou amarelo. Ele vai cantar e alegrar a vida. As boas crônicas envolvendo passarinhos já foram escritas, mas, de propósito, vou resistir e insistir, que até para ser ruim é preciso perseverança.

Haverá uma praça, um banco de praça, e nele se sentará um senhor muito simpático, à sombra de uma árvore simples e bela, por exemplo, uma amoreira. Ia dizer “um velho”, mas uma porcaria de crônica deve ser politicamente correta. O senhor provavelmente estará assobiando sambas-canções antigos e vai comprar amendoim torrado do pipoqueiro, que na certa usará uma boina branca.

Surgirá uma criança que fará amizade com o senhorzinho, ou isso já é abusar da paciência alheia? Uma moça bonita vai acontecer e ganhar do pipoqueiro um algodão doce cor de rosa, vai agradecer com um beijo na face do homem, que só vai pensar em coisas nobres e edificantes, não em vulgares.

Nesse momento, é imprescindível que o vento traga uma flor ao cenário. Sem espinhos, claro. E que ela aterrisse suavemente no banco, ao lado do senhor, que perguntará à flor onde anda seu grande amor (crônicas porcarias amam adjetivos e rimas pobres).

A noite chegará aos poucos e uma primeira estrela vai acender. Ela vai brilhar tanto que fará uma mulher abrir a janela de um prédio, olhar para o céu e suspirar. O suspiro acordará no berço seu bebê, que mexerá os bracinhos em aprovação.

Não haverá chuva, balas perdidas, atentado do Talibã, saúvas subindo na perna do homem, que por sinal já sofre de Alzheimer, ou neonazistas que ofendem judeus e esfaqueiam velhos e gays, que isso é uma porcaria de crônica e não há espaço para acontecimentos desagradáveis.

Se houvesse uma Antologia das piores crônicas, talvez esta abrisse o livro. Seria estudada em salas de aula como exemplo a ser evitado. Execrada nos clubes de leitura. Entraria no Guiness Book of Records como a folha mais amassada e rasgada da história. Talvez até fizesse soar a campainha de casa e, no que eu abrisse a porta, levaria um murro bem dado nas fuças.

E você leu até aqui. Francamente.

Eu avisei.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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