É poliamor que se fala? [Cícero Belmar]

Posted on 13/01/2020

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Ainda que não seja no sentido denotativo da palavra poliamor, não buscarei outra para definir a nossa amizade: somos cinco com as mesmas afinidades, os mesmos sentimentos, e conseguimos estabelecer uma intimidade sincera e rara.

A palavra certa, portanto, é poliamor. E aqui, vai. Afinal, o que nos une é uma diversidade afetiva, embora, no início de tudo, tivéssemos a intenção de formar apenas uma parceria artística.

O inconveniente da expressão é que poliamor sugere cama e entre nós não rolam as estrepolias. Por isso mesmo, talvez, tenhamos dado tão certo. Neste 2020, o Autoajuda Literária, grupo de estudos e oficina permanente, faz 10 anos. Um caso de amor de sucesso.

Acho que é a organização literária mais longeva, nesses moldes e em atividade, hoje, no Recife. Cinco escritores e uma só utopia: somos eu (Cícero Belmar), Lúcia Moura, Cleyton Cabral, Gerusa Leal e Raimundo de Moraes.

Temos reuniões quinzenais (ou mensais), em que saboreamos um vinho (ou cerveja) e um jantar, enquanto realizamos as tarefas literárias. Discutimos eventos (locais e nacionais) e lançamentos de livros, fazemos leituras em voz alta, exercícios com resenha, conto, ensaio, crônica e revisões de texto.

Em 10 anos houve um longo aprendizado. As revisões foram a tarefa que nos exigiu mais maturidade. Afinal, é quando cortamos a própria carne. Fazemos “críticas sinceras” (às vezes severas), mas sempre olho no olho. Nosso primeiro mandamento é: criticar somente diante do autor, com muita verdade.

Assim, aprendemos muito conosco. Sobretudo nos habilitamos a ouvir críticas e a compartilhar criatividades. Reconceituamos muitas coisas. Numa década rolaram muitas brigas? Ôôôô!!!! Mas, se continuamos juntos é porque a nossa capacidade de perdoar e de reiniciar foi maior do que as pequenas mágoas.

Nós nos fortalecemos no movimento do tempo e chegamos até aqui com a vontade de vivermos mais dez de convivência. O Autoajuda Literária já lançou livros em conjunto, abriu uma editora nanica (que não deu muito certo), realizou palestras (engraçadíssimas) e oficinas (dignas de programa de pós).

Hoje, não vivemos uns sem os outros. Quando as reuniões acabam e voltamos para casa, já estamos mandando declarações de amor via zap. O Autoajuda Literária é o nosso lugar de fala, nossa forma de presentificação e de resiliência.

No meu entender, é poliamor: nosso casamento não binário. Afinal, como se chama casamento entre cinco? Brindemos,pois!

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

Posted in: Crônicas