Miudezas [Raul Drewnick]

Posted on 12/01/2020

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A retórica, se usada com exagero, não é um adorno colocado num elefante. É o elefante.

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Sou uma tristeza gerada por um polonês e uma polonesa num dia de 1938, em São Paulo.

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O melhor que podem dizer de si os poetas é que se dedicam a cultivar a beleza. Pode haver mais digna tarefa?

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A repetição, num chato, não é uma falha; é uma peculiaridade.

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Melhor falar de defuntos que de chatos. Não há risco de retribuições nem de represálias.

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Com essas frases curtas, se você um dia chegar ao Parnaso, será com três séculos de atraso.

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Era por aqui que as caravanas passavam, informou o homem, apontando o cemitério de cães.

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Cinco reimpressões em um mês do seu livro de autoajuda deram ao autor a convicção de que havia abandonado Shakespeare na hora certa.

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Consta que em Pompeia a temporada dos três tenores durou só uma noite – a de estreia.

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Porcarias não como mais. Até o veneno que tomo tem vitaminas e sais minerais.

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Os cativos do Amor queixam-se não do seu chicote, mas da parcimônia com que ele o usa.

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Com sua lança certeira, Dom Quixote aniquilou toda a indústria moageira.

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Um soneto às vezes se emenda; um sonetista, jamais.

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Os moradores de rua não fogem ao destino. Morrem de frio no Brás e de fome na Vila Clementino.

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A vida mudando vai conforme cada estação. E a morte? Ah, a morte não. Essa da moda não sai.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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