Das virtudes desconcertantes da infância [Mariana Ianelli]

Posted on 11/01/2020

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A criança sendo criança não sabe ser hipócrita. Mesmo as desde cedo educadas como se fossem adestráveis não têm ainda um filtro que lhes esteja tão bem acoplado que não deixe passar uma sinceridade irreparável. Sem provocação, sem intenção de magoar, ela dirá impávida e inocentemente que não gosta de você, se não gostar. Pode ser que ignore na sua cara suas perguntas, sua simpatia, seus esforços de contato.

É insuficiente pensar que elas não sabem o que fazem, que apenas ainda não aprenderam algum pudor social, que não têm ideia da tempestade que atiçam num adulto contrariado. Talvez elas saibam, à maneira delas, crianças. “Crionças”, dizia Hilda Hilst. Haja presença de espírito para encará-las quando não estão para suavidades.

Até a princesa Charlotte, cultivada na mais fina etiqueta aos 4 anos de idade, virou as costas recentemente para uma assessora da família que tentava lhe tirar um buquê de rosas da mão. Um menino argentino, que também virou notícia, conseguiu furar a segurança do Vaticano, brincou com a Guarda Suíça, interrompeu uma audiência pública do papa, e o papa, esse, que não é de vetustez, disse que o menino ali nos dava uma lição, que ele era livre, “indisciplinadamente livre”, e quem dera tivéssemos a liberdade que uma criança tem diante de seu pai.

Enquanto alguém tenta atrair o menino com uma isca de caramelo, o menino passa como um raio, se esquiva e ainda rouba o caramelo. Se nos constrangemos com esses desacatos infantis, o que não dizer das sinucas existenciais em que essas crianças nos colocam. Contam que Simone Weil tinha 5 anos quando exclamou, saindo do banho: “Treme, carcaça!”. Será que nessa hora, Mme. Selma, mãe da criatura, não tremeu também?

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* Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre (ed. ardotempo, 2013). Depois, escreveu Entre imagens para guardar (ed. ardotempo, 2017), também de crônicas. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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