O mito da internet [Madô Martins]

Posted on 10/01/2020

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Descobri que internet também tira férias. Todo ano, nesta época, pago o preço de morar numa cidade turística metida a metrópole, sem infraestrutura correspondente. Fica evidente que moro numa ilha: as ligações com o mundo exterior estão sujeitas a provedores limitados, que nos mentem sobre a capacidade do serviço que oferecem, mas cobram pontualmente. Passo períodos inteiros do dia fora da rede e o sinal da tevê desaparece pelo menos uma vez pela manhã, à tarde, à noite e de madrugada.

A Embratel – ou sei lá que órgão responde pelas telecomunicações, atualmente – faz vista grossa e não os penaliza, inclusive, pelo crime da venda casada: se você contrata uma internet mais potente, recebe nova linha telefônica que não pediu e paga taxa fixa por ela na fatura, mesmo que não use. Cada novo contrato com a empresa, um número adicional de celular. Assim, já tenho três, e não consigo me desfazer deles. Não é à toa que a internet e seus combos estão em primeiro lugar na lista dos maus serviços divulgada pelo Procon. Lista raramente divulgada pela imprensa e que não resulta em medidas exemplares.

Agora, a ironia maior: eliminaram o boleto impresso e o consumidor o recebe apenas pela internet. Se não quiser imprimir, precisa levar o celular à agência bancária ou loja, para efetuar o pagamento, ou usar o banco virtual. Mas, quando a internet “caiu”, o que fazer? Com a palavra as operadoras, que em sua publicidade garantem o paraíso eletrônico, ousando outro crime: propaganda enganosa.

O rebanho de internautas cresce a cada minuto. Não é que sejamos ingênuos, mas aceitamos compulsoriamente a manipulação, por absoluta falta de opção, pois a precariedade acontece em qualquer provedor. E quase tudo se faz via internet, no dia a dia: inscrição para concursos, requerimentos, envio de trabalhos ao escritório ou redação, compras, consultas ao dicionário…

Ah, em caso de prejuízo, não espere indenização imediata. Você terá que juntar toda uma documentação, provando que eles estão errados, e não você. E ainda corre o risco de o ressarcimento vir em forma de… outra linha telefônica, como bônus. Como os maus políticos e os bancos, eles sempre ganham. E você, paga, paga, paga e continua com uma internet meia boca.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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