Vulneráveis [Tiago Maria]

Posted on 09/01/2020

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Você eu não sei, mas ando um pouco assustado com o ano novo. Já começou assim, brabinho, explosivo, doloroso. Lamentável. Também, cria de dezenove, não se deve esperar muita coisa. Talvez esteja só impressionado com as cenas que presenciei no posto de atendimento onde passei a virada do ano. Eu não falei pra vocês? Sim. Atravessei a meia noite do dia trinta e um de dezembro para a madrugada do dia primeiro de janeiro na sala de espera de um pronto-socorro.

Também não sei se é porque estávamos no litoral e nessa época de festas estão todos mais vulneráveis, mais expostos aos perigos cotidianos. Mas o fato é que há equipes de plantão no litoral. E ainda bem que existem esses profissionais que dedicam a própria vida a ajudar o próximo, mesmo que o próximo tenha um metro e noventa, o corpo coberto de pelos, use um vestido de bailarina com as asas da Sininho e segure uma varinha mágica. Esses postos de atendimentos de urgência no litoral salvam muitos verões.

Chamou a minha atenção o número de acidentados. Abusos com o álcool, sem dúvidas. Ocorrências de tragédias na água. Descarga elétrica. Agressão física. Um que caiu do sexto andar. Outro, atropelado. E os acompanhantes ali, as caras de paisagem morta. Angustiados enquanto aguardam exames e procedimentos. Amparado por uma senhorinha, o gigante-sininho-bailarina chora copiosamente: “ele só tem dois aninhos, cara, dois aninhos…”. O vigia me explica: “Caiu na piscina”. Não dá pra tirar o olho um instante.

Um carro estacionou, sem desligar o motor, em cima da calçada mesmo. Um casal e uma menina de uns quinze anos, traziam, já sem sinal, com todo o cuidado no banco traseiro. “Ele estava conosco no sofá, tudo certo, de repente, do nada, apagou, não reage, me ajuda, moço”. A equipe se organiza para atender os casos mais graves. Muitos reclamam da demora, querem notícias. Estão visivelmente nervosos, não sabem onde colocar as mãos. Uma máquina de café alivia a tensão.

Eu sei que há casos bem simples em que todos retornam às suas casas, felizes e, passado o susto, mais antenados. Mas há, entretanto, as perdas. Como dar a notícia? Quem está preparado para o nunca mais? A dor da separação repentina, as lembranças, a convivência interrompida, afinal, tem uma vida ali…

Oh! Fui chamado.

– Olha, infelizmente, trata-se de um quadro de AVC – Acidente de Vazamento do Cristal. Vamos ter que ficar com o aparelho.

– E tem como salvar, moça?

– Cada caso é um caso. Faremos o possível.

– E vai doer?

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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