Lourenço Diaféria, um cronista na cadeia

Posted on 08/01/2020

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No ano de 1977, o cronista paulistano Lourenço Diaféria publicou uma crônica que o levaria à cadeia. Era ainda o tempo do regime militar e ele foi acusado de ofender as forças armadas ao fazer pouco caso de Duque de Caxias e de sua estátua. Tratava-se de uma comparação entre o Duque de Caxias e um sargento que havia pulado num poço de ariranhas para salvar um menino. Aos olhos do cronista, o verdadeiro herói era o sargento, não o homem da estátua, que segurava uma espada em cima de um cavalo. “O povo urina nos heróis de pedestal”, escreveu na crônica “Herói. Morto. Nós“. O cronista ficou cinco dias preso e depois, ao longo do processo, sofreria uma condenação a oito meses de prisão, mas essa decisão foi revogada em 1980, quando ele foi inocentado.

Diaféria não tomava parte em nenhum grupo político que pudesse ameaçar o poder constituído. O cronista tinha, de fato, as suas insatisfações sociais, mas, na maior parte dos casos, ele as expunha de forma mais sutil. Quem lê os seus livros de crônicas encontra apenas raramente textos tão combativos como os que levaram à sua prisão. No entanto, eles existem, destacando-se a crônica “Adivinhas. Adivinha? Adivinha!”, de “O circo dos cavalões” (Summus, 1978).

Entre as adivinhas que ele se propõe a perguntar e responder estão:

O que é que é: nasce e corre e nunca pára?
– Água do rio.
– Errado. É a inflação.

O que é que é: desce gritando e sobe chorando?
– Balde cheio de água.
– Errado. É juro bancário.

O que é que é: bate em mim, bate em vós, bate na saia e bate no cós?
– A polícia.
– Errado. É a peneira. 

No final da crônica, há uma crítica aberta à atividade de censor, a qual jornalistas e escritores como ele estavam sujeitos durante a ditadura:

O que é que é:
– Tem caneta e não tem perna, tem pena e nunca perdoa, é rábula e não tem rabo, tem rabo e nele se assenta; lê tudo, mas não escreve, corrige e nunca se emenda, quando corta nunca risca, quando risca nunca corta, é burro que nem uma porta; ganha para desfazer o que feito já está, palavrinha ou palavrão, furta pedaços de ideias, não é preso como ladrão. O que é?
– Censor.
– Puxa, ate que enfim acertou uma.

É interessante que uma crônica como essa não tenha sido o bastante para que as lideranças governamentais da época buscassem punir o seu “ofensor”, e sim aquela outra, que, se bem que fale de forma pouca lisonjeira da estátua do Duque de Caxias, é ainda a exaltação do feito de um militar. Em todo caso, pode até ser que essa crônica tenha influenciado na punição, uma vez que foi publicada pouco antes do texto que provocou a celeuma.

De fato, “Adivinhas. Adivinha? Adivinha!” é de agosto de 1977, enquanto que “Herói. Morto. Nós” é de 1º de setembro de 1977, então pode-se até conjecturar que o cronista já estivesse “visado” de alguma maneira e que a fatídica crônica possa ter sido apenas o estopim.

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Por outro lado, não se encontrará na coletânea “Circo dos cavalões” nada mais tão incisivo assim. O livro abrange o período de 1976 até o início de 1978, o que incluía, portanto, a publicação da crônica que o levou à cadeia, mas ela não faz parte dessa antologia. Como dito, foi apenas em 1980 que Diaféria foi inocentado, de modo que o processo continuava correndo e imagina-se que não ajudaria muito a sua causa dar ainda mais publicidade àquela crônica.

Outros textos mais, contudo, se lidos por uma autoridade de mais má vontade do que a média, também poderiam lhe causar problemas, como aquela em que sugere, ainda que no curso de uma trama, que a polícia não se esforçava para resolver os crimes em que ela mesma estava envolvida. Mas os maiores inimigos da crônica de Lourenço Diaféria eram o caos e a desordem da vida urbana, mesmo quando sob a falsa aparência de organização da burocracia.

Contra a burocracia, Diaféria escreveu crônicas criativas como a do escriturário Conrado, morto justamente pelo excesso de carga burocrática. Nesses textos não se nota um tom argumentativo que tente convencer o leitor, mas sim um tratamento literário ao tema, que, na medida em que mostra “na prática” certos absurdos do cotidiano, pode convencer mais que uma opinião isolada. Vislumbra-se um mundo transformado em purgatório pelas filas burocráticas e nem mesmo os alienígenas escapam dessa nossa sanha administrativa. Esses são textos leves e engraçados, mas que nem por isso deixam de ser críticos.

O cronista ainda satiriza os políticos e suas estratégias marqueteiras e mostra desconforto pelo que representam os “furgões da Brink’s”, no seu transporte de valores. Apresenta dramas urbanos e proletários, como o do pai que não tinha tempo para a filha por causa do trabalho e que, quando quis minimizar a sua ausência, não encontrou dinheiro suficiente para comprar uma boneca.  O pai ausente, o pai que desaparece, pode dar lugar a um pai de mentira, a um robô com as funções de um pai, como o cronista também chega a imaginar.

Essas pobre criaturas da cidade podem não ter outra saída que não a de projetar numa outra vida, no “além”, tudo aquilo que lhe negaram quando estavam vivos. É tal o desconsolo do cronista que ele chega a se declarar órfão da “mãe gentil”, órfão da pátria amada, o que, analisado atentamente, deveria ser algo bem mais acintoso ao exército do que a crônica que o levou à prisão.

O livro é construído com base na metáfora do circo, de onde se tirou o nome. A razão para essa escolha é apresentada pelo cronista: “Acredito que quem se debruça sobre o circo acaba por descobrir o nariz da humanidade“. E era no “picadeiro da vida” que o cronista colhia os seus grandes espetáculos e os seus artistas, alguns bem tristes, como uma rainha de carnaval, como a mulher em quem se atirava facas no circo. Às vezes o cronista olhava e sentia falta de alguma coisa, uma memória do seu passado que se esvaia na modernidade.

Nem tudo, é claro, são agruras para o cronista. Ao contemplar o espetáculo da vida, bem pode acontecer que ele descubra, por exemplo, que a gente é um pouco mais do que belos macacos ensinados. Ainda há professores, gente que ele respeitava “até a raiz dos cabelos”, ainda há uma filha que faz 15 anos, ainda há um cachorro policial corinthiano como Ringo. Célebre também como torcedor, o futebol era um dos espaços em que o cronista se permitia brincar.

Como todo escritor que se dedicou com devoção à crônica, também Diaféria tinha a sua opinião sobre o ofício: “O cronista não é um gramático, o cronista é um mero lambe-lambe da Cidade; não é um fotógrafo de estúdio, que retoca, até que tudo pareça belo e irretocável. O cronista é um retratista, que tira pequenos instantâneos – ou poses – e depois de um certo tempo tudo amarelece“. Convém, às vezes, voltar a folhear esses velhos álbuns. Sobretudo porque muito do que eles mostram ainda é a realidade de hoje, e não se pode sequer estar certo de que o dia em que um cronista acaba preso não voltará.

Henrique Fendrich 

Posted in: Resenhas