Ensaio sobre a loucura [Elyandria Silva]

Posted on 07/01/2020

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Sempre soube que esse dia chegaria! O dia em que nos imporiam moléstias graves, o dia em que nos acusariam de atentado contra a lucidez e contra os bons e normais comportamentos, enfim, o dia em que nos chamariam de loucos, descaradamente, sem dó nem piedade, sem nenhuma chance de defesa. A Associação América de Psiquiatria tem o novo DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que aponta critérios para a definição, diagnóstico e tratamento de transtornos mentais. É um livro que diz se somos loucos ou não e que pode nos condenar ou absolver após julgamentos, pelos outros, sobre nossa sanidade mental.

Enquadrei-me em tantas doenças, identifiquei-me com tantos sintomas que passei a ter medo de mim mesma e, pelo novo manual, deveria estar em tratamento ou internada, um verdadeiro perigo à sociedade. Os exageros estão sendo contestados por médicos e profissionais da área. Entre as novas loucuras, não é considerado normal quem estender o estado de tristeza e luto por mais de quinze dias, pela perda de um ente querido e também sintomas que, antes eram inerentes à TPM – Tensão Pré-Menstrual, como irritação, nervosismo, mau humor e crises de choro. Ambos são característicos, agora, de pessoas com transtornos mentais! Ou seja, se perder alguém querido tem duas semanas para chorar, depois, sorria porque está sendo filmado. Mulheres: nada de histeria antes, durante e depois da menstruação, nada de acordar mal humorada. Manter o sorriso e fazer pose de facebook, esse é o lema para os normais! E bola para frente que atrás vem gente, nem que seja um bando de loucos.

Que sejamos protegidos de uma possível Caça às Bruxas em busca de novos loucos que possam ser tratados, que possam tomar muitos remédios, que não reajam e aceitem sua nova condição existencial. Ensaio sobre a loucura para os novos tempos que chegaram, recheados de novas tecnologias, de novos avanços em diversas áreas, mas também de novas neuras e desequilíbrios da alma.

Toda forma de loucura é bem-vinda, porque é ela que nos salvará da verdadeira insanidade que é conseguir viver neste mundo daqui. É só por causa dela que não sucumbiremos e não sairemos derrotados pela nossa vã incompreensão daquilo que jamais poderá ser entendido: todas as coisas do mundo, o interno e o externo, as visíveis e as invisíveis. Abençoai os loucos, pois apenas eles estão protegidos e sobreviverão ilesos! Apenas os loucos são puros e virgens de alma, não conhecem a força da lucidez destruidora que a tantas vidas soterra.

Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do corpo. … A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.” Como Clarice Lispector estava certa, como soube prever que, no futuro  onde não mais estaria entre nós, muitos encontrariam a perfeição e enxergariam, de verdade, em suas loucuras variadas. Pobres daqueles que são normais demais!

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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