Que tudo se realize [Daniel Russell Ribas]

Posted on 06/01/2020

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Ao redor do barulho, alguns desejos se realizam, outros não. (Seria a regra da vida, afinal?) Enquanto contemplava o oceano revolto de pontos errantes muitos andares abaixo, Armando decidiu que seu desejo de réveillon era que o impacto de seu corpo com o chão fosse forte o suficiente para lhe proporcionar uma morte rápida e indolor. No mar humano, haveria uma ilha deserta, em que sua massa espatifada seria única habitante.

Num prédio afastado da praia, insuspeita, a menina Isabela, que, por sugestões de sua mãe (tornadas cada vez mais frequentes à medida que a noite e o álcool e o pó avançavam em sistema dela) de que fizesse um pedido, olhou para o céu estrelado, suspirou e, num pensamento tão íntimo que a própria menina de 5 anos duvidou que tivesse ocorrido, quis que seu tio parasse de colocar os dedos dentro de sua calcinha e que ele cumprisse a promessa de trazer a tal boneca, o motivo por que aceitara participar daquela brincadeira desagradável em primeiro lugar (Os dedos do tio eram grossos e ossudos e machucavam, além de uma sensação ruim que não conseguia descrever…) Fez um terceiro pedido, que os dedos do tio caíssem. Os primeiros minutos do novo ano a convenceriam de que fora tão silenciosa em seu pensamento que o responsável pelo atendimento dos pedidos não teria escutado. Também, com o barulhão daquele pessoal todo na rua e no apartamento. Queria poder ver os fogos de sua janela, que lembrava estrelas cadentes, pois viu em um desenho que essas realizam desejos…

No sétimo andar, Otávio queria que sua namorada gozasse assim que os fogos estourassem. Seria romântico e inesquecível. Saia com Michelle há algum tempo e gostavam da companhia um do outro. Eram dois jovens recém-formados de 20 e poucos anos, com emprego, projetos, barzinho, animais, Netflix, jogo de futebol com amigos, saída para beber com amigas, viagem uma vez ao ano (“Ano que vem, vamos para Barcelona.”), churrasco, masturbação, secretária do lar uma vez por semana, … Praticamente tudo no lugar, exceto que ele nunca a fez gozar. Tentou diversas posições, oral, anal, movimentos, ritmos na penetração, sacanagens, óleos, objetos para auxílio, dor, mais dor, romantismo, livros, conversas, a 3, a 4, a mais, a menos, terapia… E nada. Sabia que Michelle o largaria se não a fizesse gozar, porque mulher é assim. Se não é bem comida, e o cara não é herdeiro, dá um pé na bunda. Há muitos pecados que um homem pode cometer a uma mulher: trair, bater, humilhar, calar, quebrar, exceto um. Se fosse milionário ou alguém com carisma acima do usual, talvez ela arrumasse um amante e ficariam juntos. Mas Otávio era um jovem branco de classe média em começo de carreira, uma espécie que se encontra em qualquer festa com a mesma facilidade de uísque falsificado. Ela gozaria naquela noite, Otávio determinou. Tomou mais de um comprimido para se certificar. Nos primeiros minutos de janeiro, ele a ouviria gritar de prazer e garantiria sua posse.  Em troca, doaria umas camisas velhas para uma igreja que abrigava refugiados. Justo. Ignorou a ansiedade que se formava.

No elevador, que parava a cada andar apesar do aviso do síndico para evitar a superlotação do espaço (devidamente ignorado), tudo o que Magda queria era fazer xixi. Ela se remexia, mas a empolgação de alguns e a raiva de outros (a agitação de todos, enfim, similar à sua), a ignoravam completamente. De repente, sentiu a calcinha molhar, as pernas aquecerem. Uma pequena poça se formou, sem que muitos notassem. As pessoas presas ficariam mais nervosas em seguida. Nem Magda sequer o elevador se moveram.

Enquanto aguardava que o elevador chegasse (e não viesse cheio de gente), Tiago planejava o enredo de seu primeiro livro. Seria um comentário mordaz sobre a mercantilização dos relacionamentos modernos, usando as redes sociais como pano de fundo. Mas já tinha sido feito antes… Sabia, inseriria reflexões de filósofos contemporâneos e quebraria a estrutura de modo a estabelecer um “antiparadigma semiológico”. Entretanto, soava intelectual demais, hermético. Incluiria erotismo na trama. Descreveria de forma explícita as relações sexuais, com direito a cada ato e fantasia, pau na boceta, pau no cu, boceta na boceta, pau no pau, boceta no cu e por aí vai. 50 tons de Bauman. Pronto! Seus amigos do pós-doutorado o chamariam de vendido e a banca não consideraria seus projetos com seriedade. Largou tudo de lado e repensou aquela história infantil sobre uma menina e gato, inspirado em sua filha com o animal de estimação. Sorriu ao aventar as possibilidades narrativas e comerciais. Sequer se lembrou de apertar o botão para chamar o elevador, que passou direto e cheio de gente. Tentou o outro, que não saía do mesmo andar.

Atrás de uma porta, um jovem surdo-mudo chorava a morte de seu pai, enquanto desejava que ele tivesse compreendido o que significava “amor”. (Será que ele próprio saberia esta palavra, mesmo que chorasse desde o óbito oficializado durante a tarde do dia 31?)

Em pleno calçadão, um mendigo tropeçava. Todo dia, por todo ano, este mendigo (que já teve nome, mas isto se passou a tanto que é quase como se nunca tivesse existido este tempo) passava em frente a este edifício, embriagado de qualquer bebida que pudesse tomar. Apesar da fome, das constantes ameaças e abuso dos outros, mantinha-se otimista. Sempre conseguia trocado para uma bojudinha no botequim. E quando tomava, ah, sentia o coração bater forte! Exceto, por ironia, naquela noite final. Havia bebida por todos os lados, mas ninguém disposto a lhe dar uma moeda ou um gole. Como se sentisse um toque de sobriedade, notou que, por trás dos sorrisos, escondia-se algo terrível, egoísta e desolador sobre a raça humana. Toda alegria era fútil, pois passageira, como um espetáculo de luzes que some no ar em seguida. Somente a crueldade era constante. Não lembrava seu próprio nome. Quis que sua vida acabasse logo. Assim que os fogos estouraram, olhou para cima a tempo de ver seu desejo se realizar.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

Posted in: Crônicas