Conta-me como foi [Marcelo Tacuchian]

Posted on 04/01/2020

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Após um intervalo de oito anos, o canal aberto RTP estreou a sexta temporada da série Conta-me Como Foi. Durante as cinco primeiras (exibidas entre 2007 e 2011), os portugueses acompanharam o cotidiano da família Lopes, composta pelo casal António e Margarida, os três filhos e a avó materna, que morava em um apartamento de classe média-baixa na longínqua Lisboa dos fins dos anos 1960 até a Revolução dos Cravos no omnipresente 25 de abril de 1974.

Tempos de um Portugal bastante diferente do de hoje. Um país fechado onde o “estrangeiro” era ao mesmo tempo temido e símbolo de esperança. Por um lado, as mães tinham medo de que seus filhos fossem mandados à África para combater nas guerras de ultramar e, por outro, as pessoas tinham sonhos de emigrar em busca de melhores condições de vida (ah, o sonho da família Lopes de morar na chique Paris).

Período em que o país se isolou da comunidade internacional por não aceitar a independência de suas colônias africanas. Dias em que não só não se podia manifestar interesse por política, mas também se rezava para que a temida PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) não estivesse interessada em você. Salazar era “mito” até cair da cadeira, literalmente.

As cenas são sempre conduzidas através dos olhos e narração do filho mais pequeno do casal (as vantagens de escrever em Portugal é poder usar o poético “mais pequeno” e não levar uma gramática na cabeça). O Carlos, ou Carlitos, tinha 8 anos à época e é o fio condutor da história.

Tempos em que eu também era uma criança. Eu era o Carlitos. A diferença é que estávamos separados por 7700 quilômetros. Eu no meu Rio de Janeiro natal e ele em sua Lisboa. Distantes, não tivemos as mesmas experiências.

Eu vibrava com as peripécias em alta velocidade do Speed Racer. Carlitos teria assistido esse desenho comigo assim como eu gostaria de ter acompanhado o seriado O Fugitivo com ele. Não pude conhecer as incríveis aventuras do Dr. Kimble tentando provar sua inocência enquanto escapava da polícia.

Eu era um ávido colecionador de figurinhas ligadas a futebol e sentia um prazer todo especial quando conseguia um Pelé ou outro craque da época.  Carlitos teria trocado essa figurinha comigo assim como eu teria me emocionado em conseguir o seu cromo mais difícil, o do ídolo moçambicano Eusébio (pois é, Moçambique era Portugal nessa época).

Eu tinha a permissão dos meus pais para tomar um Chicabon no fim de semana. Carlitos gostaria de ter se lambuzado com este sorvete assim como eu gostaria de ter provado o Perna de Pau. Qual criança resistia ao melhor gelado de baunilha com geleia de morango e cobertura de chocolate?

Meu passado português não existiu e hoje, para entender melhor o meu presente, procuro por ele nos livros de história e em séries televisivas como essa.

É possível uma pessoa ter duas infâncias? Paradoxalmente, sem qualquer conotação espiritual ou religiosa, acredito que sim.

Obrigado, RTP, por contar como teria sido meu outro passado. Estou a (re)vivê-lo agora.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

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