Cem anos de crônicas no Estado de São Paulo

Posted on 03/01/2020

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O Estado de São Paulo é um dos jornais mais antigos em atividade no Brasil. Ao longo da sua história, escritores dos mais diferentes estilos praticaram em suas páginas o gênero da crônica. No início da década de 1990, decidiu-se reunir em uma coletânea os mais representativos entre esses escritores. Surgiu então “Cronistas do Estadão“, abrangendo um período de 100 anos do jornal: as crônicas vão de 1892, com Raul Pompeia, até 1991, com Rachel de Queiroz.

As crônicas mais antigas não têm ainda o formato clássico que seria atribuído ao gênero, sobretudo a partir de Rubem Braga, mas é de se notar que várias das características comuns à crônica já eram praticadas por esses pioneiros no gênero. Raul Pompeia, por exemplo, comenta sobre a inusitada decisão de se transferir o carnaval do Rio de Janeiro para o inverno. O escritor se vale de um tema noticiado e colhe impressões gerais conforme a sua visão da cidade. A relação com o fato noticiado se mantém no gênero até os cronistas atuais.

Vicente de Carvalho, que faz um texto límpido mesmo para os dias de hoje, brinca com um tema aparentemente banal (a chuva), criando a partir dela teorias que são menos disparatadas do que se imagina. O cronista, ainda em nossos dias, com frequência levanta hipóteses e suposições que, se por um lado fazem rir, por outro sugerem pensamentos mais profundos. Olavo Bilac, que foi um cronista bastante combativo, comparece no livro com um texto de temática urbana, fazendo a “ocupação” do espaço em que vive, em uma relação entre cronista e cidade que também sempre marcou o gênero.

Entre os escolhidos para essa coletânea, porém, estão também autores que não são necessariamente exemplos de cronistas, não tendo dedicado-se a ela senão muito eventualmente, casos de Euclides da Cunha (que se aproxima da reportagem) e Rui Barbosa (que se aproxima do artigo). Foi sob a rubrica da “crônica”, no entanto, que escreveram textos no Estadão, e não deixa de ser uma experiência interessante conhecer esse tipo de produção desses autores.

Há ainda escritores bem mais famosos em outros gêneros, como é o caso de Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, além de um surpreendente Erico Verissimo, que faz de “Drama num aquário”, possivelmente, a melhor crônica do livro. Ali está o uso de tema aparentemente banal e despretensioso, como é uma briga entre dois peixinhos em um aquário, mas a partir dele o escritor faz uma reflexão das mais interessantes sobre o próprio comportamento do ser humano. Com frequência, os cronistas falam grandes verdades como quem não quer nada e Erico Verissimo – que é um destacado romancista – demonstrou que também podia ter esses traquejos do gênero.

Se esses são escritores mais “nacionais”, há também um interessante time de cronistas que tiveram sua produção centralizada em São Paulo e nas páginas do Estadão. A começar por Luís Martins, um dos cronistas mais profícuos do Brasil, que escreveu por décadas no jornal. Outro nome de destaque para o Estadão foi o de Guilherme de Almeida, único a comparecer no livro com três crônicas, ainda que curtas, notando-se em todas a sua capacidade de produzir poemas em prosa. Outros nomes do Estadão são Vivaldo Coaracy, Alfredo Mesquita, além de outros escritores e jornalistas contemporâneos à publicação do livro, entre eles Raul Drewnick, hoje cronista da RUBEM, autor da sensível e bem construída crônica “Em tempo de miojo”.

Fazem parte do livro, também, alguns dos nomes mais importantes da crônica, como Rubem Braga, Fernando SabinoCarlos Drummond de Andrade e Luis Fernando Verissimo, todos cronistas durante a maior parte da vida e, em algum momento, do Estadão. Rachel de Queiroz, também presente, é outro desses nomes que se dedicaram à crônica ao longo de toda a sua trajetória literária. Era já a época de Caio Fernando Abreu, que aparece com “Pequenas epifanias”. A crônica de Gustavo Corção se mostra interessante pelo conteúdo, uma vez que trata da sua improvável amizade com Oswald de Andrade. Destaque-se ainda João Antônio e o polêmico Paulo Francis.

Lê-se rapidamente o livro. É um recorte interessante e seria bom se outros veículos antigos no Brasil organizassem antologias similares. O próprio Estadão bem poderia lançar uma nova edição, considerando que também já foram cronistas do jornal nomes como João Ubaldo Ribeiro e Mário Prata.

O livro, atualmente, só pode ser encontrado em sebos.

Henrique Fendrich

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