1° de janeiro [Cássio Zanatta]

Posted on 31/12/2019

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Acordou com o sol entrando pela janela (que esquecera de fechar) e a cabeça pesada. Tateou a ressaca, não estava tão feia assim para a beleza de desempenho na festa. Sabia que ia ser desse jeito, todo Reveillon é essa coisa. Bebeu, dançou, deu muita risada, bebeu, abraçou, beijou, bebeu, foi abraçado e beijado, bebeu. Virou de uma vez a água de coco gelada comprada na véspera.

Por que a gente tem tanta esperança na passagem do ano? Por que acha que vai ser tudo diferente, que de uma hora pra outra os problemas vão se resolver? Só porque virou o calendário, as contas deixarão de existir, os boletos desistirão de chegar?

O telefone toca. Corre para atender e não acordar os pais (sim, 30 anos e ainda morava com os pais). Quem ligaria a essa hora? Era – meu Deus, não é possível – o chefe! Nem chegou a responder, o patrão foi metralhando, todo animado:

– Feliz Ano Novo, Rica!!! (assim mesmo, com essa intimidade e três exclamações) Muita saúde, muita paz, ah: e tire janeiro para descansar. Não precisa vir na segunda não, não seja tão caxias. Aproveite que estou depositando um bônus de dois salários na sua conta para viajar pelo mundo. Felicidades, garoto!

Desligou. Mas o que era isso, um trote? Não, era mesmo a voz do chefe. Mas vejam só que esse ano até que começou mais promissor. Abriu a porta para pegar o jornal, a manchete trazia uma notícia impressionante: “Bilionários criam fundo para acabar com a pobreza”.

Caramba. Bela notícia. Foi quando recolheu o jornal do chão e viu sob ele, deixado no capacho, um bilhete escrito a mão. Ué. O que seria aquilo? Leu em voz alta:

Ricardo. To sozinha em casa. Meio triste, até cancelei o comercial de cerveja. Cansei de ser vista como um objeto. Venha, preciso de um ombrinho amigo. E, por favor, me ajude a provar os biquínis que ganhei no Natal. Sua vizinha do 62 (caso você não lembre, a Miss Curvas 2019).

Ficou ainda 10 segundos com o bilhete na mão. Mas péra aí. Ontem de noite, na festa, de fato fiz alguns pedidos para o ano. Mas eram devaneios, não é possível que…

O celular vibrou no bolso da bermuda. Era uma mensagem:

“Bom dia, seu Ricardo. É o Cardoso, seu gerente. Só pra avisar que o banco perdoou sua dívida, viu? Está zerada. Confirme seu endereço porque queremos também te mandar umas flores. Você prefere margaridas ou orquídeas?”

Pasmo, aos poucos recobrava os movimentos. Ia fechar a porta quando a porta do elevador abriu. Era o vizinho de baixo, que segurou a porta o tempo suficiente para lhe dar um recado:

– Oi, Ricardo. Sabe, estou indo fazer um intercâmbio de um ano na Noruega. Você podia esse tempo cuidar da minha Ferrari, por favor? – e entregou as chaves.

A porta do elevador fechou, sua porta também. Mas o que estava acontecendo? Seus desejos de Ano Novo estavam se realizando! E ele que duvidava dessas coisas, dos pedidos, promessas, muitos dos desejos nem eram pensados muito a sério.

Foi quando lembrou (apesar da leve amnésia alcoólica):

Meu Deus. O ano estava acabando e eu tinha tanto problema, estava sem namorada, durango, com dívidas, tão infeliz que, quando olhei para o Borba, meu gato, dormindo no sofá, na mais santa paz, nem aí com o mundo, senti inveja. No meu desalento, eu quis ser como ele. Desejei mesmo, olha que bobagem.

Miau.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Posted in: Crônicas