Gosto bom [Madô Martins]

Posted on 27/12/2019

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Escrevo para vocês saboreando uvas e cerejas. É a única época em que me permito prova-las, não porque não possa em outra ocasião, mas para vincular sua doçura às festas de fim de ano. Podem reclamar da febre de consumo, da gula, da falsidade dos cumprimentos, das festas obrigatórias, mas adoro esse tempo! Acordo com uma revoada de borboletas dentro do peito, alma cantante, sorriso à toa. Faço as pazes com a vida e preparo a mala: por dois dias estarei com meus amados, que pouco vejo, apesar de morarmos na mesma cidade.

Há quase quatro anos, o Ano Novo tem rosto de menino cujo nome imita as primeiras letras da felicidade. A cada semana, seu corpinho se estica, avisando que ficará ainda mais alto que o pai. E quando chego, vai direto inspecionar as sacolas, porque sabe que ali sempre haverá presentes, mesmo nos dias mais comuns.

É engraçado, desta vez, termos feriado nos chamados dias úteis. Ficaremos todos inúteis na terça e quarta das duas próximas semanas, dedicando-as ao prazer, Jesus como pano de fundo. Serão dias de gratidão, por mais um ano vencido, por sobreviver à realidade que aí está e queremos tanto mudar, por nossa família, e teto, pão, salário, dons, afetos.

Aguardo 2020 com atenção, porque prefiro anos ímpares, mas quero ver se elimino de vez a crença que sou mais feliz neles. Desde já, estabeleço prioridades: quero reduzir o peso e o número do manequim, diminuir o ritmo de trabalho, viajar e, quem sabe, juntar aos bens materiais um cantinho onde possa me refugiar da rotina da cidade.

Sonhar é preciso, acreditar nos sonhos, também. Por isso, mantenho os braços abertos para o futuro que, como de hábito, terá altos e baixos, perdas e ganhos, mas, espero, mostrará novos caminhos para todos nós. Temos o privilégio de nos reinventar, então é escolher a personagem que pretendemos incorporar a partir de primeiro de janeiro, sabendo que podemos trocar a fantasia a qualquer momento, se a escolhida não cair bem.

Essencial é manter na boca o gosto das uvas e das cerejas, deixando que percorra corpo e alma, para que se tornem doces, também.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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