Rotina e remorso [Tiago Maria]

Posted on 26/12/2019

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Eu nunca desejei o mal a ninguém. Tá, nunca, nunca, já é exagero. E ninguém, ninguém também é mentira. Mas normalmente eu não desejo o mal a ninguém. Acontece que eu chego ao Centro da minha Poa lá pelas sete e quarenta da manhã. Daí que só tenho vinte minutos antes de assinar o ponto no Arquivo Público do RS. Então, faço uma correria para estar na lanchonete do Bigode a tempo de pegar o jornal na bancada e pedir meu café com leite, bem branquinho, por favor, e um Farroupilha (pão francês, que aqui é cacetinho, com manteiga, presunto e queijo) prensado, por favor. O Bigode faz um sanduíche Farroupilha de dar inveja em qualquer Bento Gonçalves. Só que, de uns tempos pra cá, minha rotina vem sendo quebrada, usurpada, ou melhor, assenhoreada.

Um senhor que deve ter, sei lá, uns cento e oitenta e poucos anos, daqueles baixinhos encurvados, sabe? Usa uma boina e suspensórios. Óculos com lentes bifocais. Apoia-se em uma bengala. Pois este senhor está chegando antes do que eu na lanchonete do Bigode e fica fazendo as cruzadinhas do jornal enquanto sorve len-ta-men-te um cafezinho preto interminável. O pior é que o Bigode só tem um exemplar na lanchonete. Aí eu fico na esperança do senhorzinho acabar logo as cruzadinhas, ou o cafezinho, o que nunca acontece. Tudo bem que é só um jornal com aquelas notícias pavorosas, o horóscopo, vez que outra uma crônica do Verissimo, os classificados, o obituário, uma receita culinária, dicas de viagem e tal. Mas, pelo amor de Zeus, estamos falando aqui da minha sagrada rotina matinal!

Eu já acelerei o passo pra ver se antecipava ao ancião. Sem efeito. Já tentei atalhar pela galeria Chaves. Nada. Combinei então com o Bigode de deixar o jornal escondido em baixo dos cardápios. Cheguei até mais cedo e lá estava o senhorzinho desenterrando o jornal da bancada. Uma vez, peguei o ônibus do horário anterior ao meu, madruguei no Centro Histórico, parei na frente da lanchonete e fiquei esperando o Bigode abrir. Quando subiu a cortina de ferro adivinha quem estava lá dentro, o jornal em baixo do braço: “um cafezinho preto, bem forte, taça grande, por favor”. Olhei pro Bigode e ele ergueu os ombros. Não é possível. Só pode ser combinado. Numa outra eu já estava a uma quadra do Bigode quando o senhorzinho apontou na esquina. Pensei: “essa eu não perco”. Hoje sim! Hoje sim! Hoje não. Pois não é que o velho safado barrou minha ultrapassagem com a bengala já na porta da lancheria?

Tá, eu podia comprar o jornal toda a manhã e acabaria com essa tortura. Mas o preço do jornal é quase o valor que o Dudu Milk (governador Eduardo Leite) me paga (atrasado) de almoço. Daí fica indigesto. Esses dias pensei em dar uma revista dessas de cruzadinhas para o senhorzinho se distrair enquanto eu pegava os óculos dele e sapateava em cima, depois chutava a bengala pro meio da rua e derramava o café preto todinho no chão, então eu oferecia um pedaço do meu Farroupilha pra ele e ria. Tudo isso em pensamento, é claro. O fato é que eu não consigo mais ler as notícias e tenho sonhado com o senhorzinho nu atrás de mim que estou correndo em direção ao jornal na bancada da lancheria do Bigode sem conseguir sair do lugar.

Não que eu tenha desejado o mal para esse senhor, longe disso, eu só queria a minha rotina de volta. Agora faz umas duas semanas que ele não aparece e eu não tenho coragem de pegar o jornal na bancada. Fico esperando ele entrar e pedir o cafezinho preto, o imagino ali fazendo as cruzadinhas, a bengala apoiada na cadeira, a boina sobre a mesa, as mãos trêmulas… Já perdi duas vezes o meu horário. Olho pro Bigode e ele só ergue os ombros e acena com a cabeça. Se alguém conhecer esse senhorzinho, por favor, diga-lhe que tem um café por minha conta lá no Bigode. Alterar a rotina é um troço dolorido. Mas remorso é de matar.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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