Amanheceu [Drica Muscat]

Posted on 25/12/2019

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Hoje é mais um dia de greve dos transportes na França, e eu consegui pegar um trem de primeira, sem ter que esperar outros dez passarem até que eu pudesse entrar. E estou sentada. Depois do que eu vivi nos últimos dias, do sufoco, de sair de casa ainda à noite para, mesmo assim, chegar atrasada e amassada no trabalho, de voltar no fim do dia soterrada e muito contrariada, eu sentei no trem.

Moro em Paris há mais de dois anos. Nunca antes tinha experimentado uma sensação tão boa ao sentar dentro do transporte público.

Estou usando o seu fone de ouvido que é muito melhor que o meu, porque antes de eu sair de casa você me disse: leva ele com você, vai melhorar o seu caminho.  Vou aproveitar, então, a música do seu fone e este longo trajeto até o trabalho, para te escrever esta carta, que você vai ler no dia do Natal.

Aprendi muito desde que me mudei para a França. Aprendi a me aceitar sabendo que não me aceitei tanto assim, mas que eu posso falar mal de mim pra você, e você sempre vai me defender. Aprendi a mudar de ideia com mais facilidade, sem tanta punição. Aprendi a falar accueil. Aprendi a desculpar o outro mais ou menos, e me dizer que é a vida, que uma hora passa. Aprendi a errar, sabendo que estou errando, mas me dizendo que tudo bem, pelo menos eu sei mudar de casa com tudo incluso em menos de 4 horas, e tenho bastante experiência. Se tudo der errado eu viro isso: mudadora de casa.

Mas, além de tudo isso, eu posso afirmar que na França eu aprendi, principalmente, o que é amar. Foi quando eu olhei pra você e enxerguei algo inédito: dava pra ser mais fácil.

Vi em você alguém com muita paciência e disposição para ensinar uma alma inquieta a relaxar um pouco mais, e aceitar deixar a louça e a faxina para amanhã. Vi em você o meu melhor companheiro de todas as horas, daqueles que queria muito mesmo sair à noite, mas acha que hoje é melhor ficar em casa embaixo do cobertor, assistindo Friends com o nosso gato preto que vem sempre no seu colo e não no meu, e me enche de ciúmes.

Eu acho que soube quando você pegou minhas duas mãos e me puxou pra dançar enquanto o macarrão cozinhava, numa noite de verão. Soube quando você começou a passar meus vestidos ao ver que eu estava muito perturbada tentando fazer as malas pra pegar um avião. Soube quando você aceitou ler um livro sobre feminismo, e depois me fez perguntas para a gente falar sobre aquilo. Soube quando você deu carona pras minhas amigas. Quando você me deu este presente, e agora, quando estiver lendo este texto, estaremos de férias e juntos no meu país com a minha família.

Neste momento eu já mudei de trem, peguei a linha C, e a cidade está amanhecendo. Aqui dentro cada um tem uma história diferente. A minha é só mais uma no meio deste romance imenso de vidas coloridas que se cruzam todos os dias dentro dos transportes, como nas lindas tranças dessa garotinha que senta aqui na minha frente.

Nem mais, nem menos – cada um com seus objetivos, suas crenças, seus medos, sua força, seus sotaques e seus amores que nos fazem escrever no trem enquanto a vida amanhece, e a louça e a faxina podem ficar pra depois: porque amar passa a ser, finalmente, a nossa prioridade.

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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