Farofa de palavras e o Big Brother da escrita [Elyandria Silva]

Posted on 24/12/2019

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Pasiência – segundo o dicionário Aurélio significa a virtude que consiste em suportar os males ou incômodos com resignação; tolerância; longanimidade.

Expanto – segundo o dicionário Aurélio significa susto, sobressalto. Pasmo; admiração.

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A pluralidade da linguística no Brasil é eclética trazendo uma diversidade cultural rara no português falado no país, principalmente considerando que temos cerca de 200 línguas sendo faladas no Brasil. São comunidades indígenas, quilombolas e de descendentes de imigrantes. Juntas somam 1,5 milhão de pessoas falando cerca de 200 línguas brasileiras sendo 180 indígenas. Isso coloca o país em que vivemos entre os oito países que concentram mais da metade das línguas do globo, juntamente com Papua Nova Guiné, Indonésia, Nigéria, Índia, México, Camarões e Austrália.* São bons motivos para valorizar, amar e aprender a falar e escrever corretamente, com zelo. Aprendemos a falar a língua materna em casa com os familiares e depois frequentamos escolas regulares nas quais temos aulas de português e isso se segue por anos no ensino fundamental e médio. Ter bons e corretos ensinamentos de português tanto em casa quanto na escola depende de uma série de fatores, mas isso é assunto para outra conversa. O que importa é que se pressupõe que uma pessoa que tem ensino de qualidade desde criança, cresce estudando em bons colégios e tem a oportunidade de fazer faculdade e ter um diploma universitário sabe falar e escrever bem. Sabe escrever sem erros grotescos de português para si e para os outros. São apenas suposições!

Você se espantou (com s) com o fato de essa crônica começar com duas palavras escritas de forma incorreta.

Aconteceu essa semana, mas vem acontecendo há muito tempo, tornou-se frequente, rotineiro, “normal”. Pessoas escrevendo textos filosóficos, reflexivos e postando na rede social com vários erros de português. Pessoas escrevendo o que era para ser com X com S, o que era para ser com Z com X, colocando acento onde não tem, pintando e bordando com a pontuação. Isso sem falar na falta de concordância, de coerência e coesão de alguns textos que se tornam uma “farofa de palavras” sem sentido. O pior ainda está por vir… muitos textos e/ou frases tem centenas de curtidas, aplausos e comentários (também escritos com erros, claro) que incentivam o autor a escrever mais. Alguns donos dos erros são “professores”, “escritores”, o que dispensa mais comentários. Uma verdadeira chacina da língua portuguesa escancarada para quem quiser ver. Um Big Brother da escrita. As palavras que dão início à crônica são apenas exemplos pitorescos que mais me chamarem a atenção nessa semana, mas a situação real vai muito além dessas palavras.

Há que se ter muita paciência para não se espantar com tudo o que vemos de errado. Por um mundo com mais leitura, mais conhecimento e menos banalidades e faz de conta. É bom tomar cuidado e ficar preparado, pois pode chegar um dia que escrever errado se tornará o certo e aqueles que reclamam e não aceitam, como eu, se tornarão vozes perdidas e desatualizadas na multidão das letras trocadas.

A propósito, a palavra Paciência se escreve com “c” e depois outro “c”. A palavra Espanto se escreve com “s”.

*Fonte: Revista da Cultura / Edição 35 / Junho de 2010

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

 

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