Onde a fala não tem vez [Daniel Russell Ribas]

Posted on 23/12/2019

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Perto do Natal, li o artigo do Antônio Risério na Folha de S. Paulo. Minha impressão foi a de quem recebe uma cantada criativa, mas que falha em esconder suas más intenções. Lembrei-me dos sofistas, por conta do domínio de palavras a serviço da tentativa de persuadir o leitor ou interlocutor. Para quem não sabe, sofistas era os filósofos gregos que viajavam pelas cidades para divulgar conhecimento. Através de uma linguagem sofisticada e uma elaborada arrumação do pensamento, buscavam convencer o público da validade de seus questionamentos por um trocado. A grande diferença entre gregos e o baiano reside que a força estética do articulista brasileiro não esconde a fragilidade argumentativa. Substitua aretê por dendê, ou seja, a excelência por algo escorregadio.

O antropólogo retoma a argumentação de uma entrevista dada ao blogue de Luciano Trigo por ocasião do lançamento de seu mais recente livro, “Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária”. No caso, o texto pressupõe o lugar de fala como fascismo identitário, ou seja, uma ação hostil que busca calar aqueles que não pertencem a um grupo autoidentificado como “oprimido”.

Uma amiga postou uma explicação bem básica sobre o que é este tão falado lugar de fala: “lugar de fala não significa que x pode falar e y não pode, mas que x não falar por y. pode falar de y, sobre y, para y, mas não pode falar por y, no lugar de y, porque as condições materiais históricas de x são diferentes das de y. Todo mundo pode falar, mas não pode falar pelo outro, no lugar do outro, porque a estrutura de privilégios da que eu parto é diferente da estrutura de exclusão de que uma mulher negra, por exemplo, parte. Isso não significa que eu não posso falar dela, para ela, sobre ela, assim como de mulheres negras, para mulheres negras, sobre mulheres negras, mas que eu nunca posso falar como uma mulher negra.”

Em sua defesa para uma liberdade de pensamento, ele justifica sua necessidade a partir de uma censura da esquerda, presente em faculdades e feiras literárias. Tenta se isentar de uma posição retrógada ao condenar a falta de retórica da extrema direita, mas, na minha interpretação, o autor demonstra uma visão de si como superior na medida em que iguala a esquerda e a direita na condenação, e se cataloga como “um pensador independente”. Ao fim, só se mostra dependente da retórica opressora, aquela que anula a verdade alheia para ocupar a sua. Não é por se colocar contra autoritarismo que isso não lhe torna autoritário.

A liberdade de pensamento não justifica a defesa de um antipensamento. É a retórica do PowerPoint: sem provas, mas muita convicção. Cita a polêmica envolvendo a antropólogo Demétrio Magnoli na Flica (Feira Internacional do Recôncavo Baiano). Risério escreve que ele foi expulso, mas relega a informação de que, após a polêmica, a organização da feira cancelou a mesa por “não garantir a integridade física do mesmo.” Um episódio que, para o autor, serve de metonímia para os grupos discordantes. Independentemente do espaço que um escritor que escreveu para grandes veículos de comunicação e um grupo de estudantes alcança, o articulista está convicto de que há uma falta de espaço, apesar de o personagem da controvérsia ter sido convidado e muito bem poderia ter seguido com a programação apesar da decisão dos organizadores. Gritar censura é possível, sofrer censura é sequer protestar sobre o ocorrido na reportagem do G1.

Daí volto ao autoritarismo. O uso reiterado do termo “esquerdistas” como uma massa homogênea e acéfala soa como se qualquer questionamento de um terreno diferente do defendido pelo autor fosse inválido. Para isso, afirma que a necessidade de pronunciamento a partir da experiência pessoal de alguém pertencente a um segmento possa ser comparada a zoologia no que chama de “predisposição identitária”. Se estivéssemos em uma cultura em que racismo e misoginia não fossem tão entranhados, haveria uma lógica. Por outro lado, não há uma ida ao noticiário que constate uma diminuição em casos de homicídio ligados a minorias, sejam negros, mulheres, índios ou LGBTs. Em um momento histórico em que vozes no poder relincham barbaridades contra grupos oprimidos, em que o condicionante é visto como determinante, parece perverso. A disposição sociológica, em suma, existe no plano da teoria, não na prática que pode ser vista nas ruas.

O que vejo como perverso está justamente na estética. Risério escreve bem. Para quem não se atribui a uma análise de seu texto, é convincente. Está convicto. Mas as provas de sua argumentação são falhas. É um prato cheio para aceitar sem questionar. Isto é a que me propus neste desabafo. Não acredito que ele esteja certo, e expus minha razão. Ele expõe a dele, e pode discordar de mim. Nós temos um espaço para isso. Para quem nunca pode ser ouvido, o lugar de fala se torna imprescindível para fornecer um mínimo de espaço. Além dos teclados, faz feiras e das faculdades, a vida se faz na prática. Vai ser expondo aos outros que podemos vislumbrar do que se trata a existência individual. Se nos deixamos inibir pelo oportunismo que cada grupo utiliza terminologia, estaremos reféns da ignorância, no “dois pra lá, dois pra cá” que não permite o debate.

Este texto não tem um fim. É uma opinião, ou seja, uma parte de algo maior.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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