Sobre sexta-feira [Rubem Penz]

Posted on 20/12/2019

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Na nossa festa vale tudo
Vale ser alguém como eu
Como você
Nelson Motta
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Queria dizer algo sobre sexta-feira passada. Houve ali uma sutil mudança de rotina e, já no sábado pela manhã, colhi bons frutos ao pensar no assunto. Porém, para ser justo e preciso, tudo começou na quinta-feira. Ou antes, quando considerei interessante adornar a festa de fim-de-ano da Santa Sede com a sonoridade dos anos 1970/80 – vivas a Tom Saldanha! – e iluminar uma pista de dança. Desde então pairava entre os futuros convivas a questão: deve-se ir vestido a caráter? Sim ou não, era minha resposta. A escolha seria particular.

Um dia antes, na quinta, resolvemos aqui em casa pensar nos trajes e, intruso no lado da Vanessa no closet, sequestrei uma esvoaçante camisa floral. Decidira resgatar o tanto de liberdade estética e extravagância incontida típica daquela época em meu hábito. Fotografei e compartilhei nos grupos de whats o ímpeto. Enfim, estava comprometido com o plano traçado.

O dia seguinte trouxe algumas alterações nos movimentos tradicionais e, com elas, a necessidade de eu deixar o carro em casa para tomar um ônibus metropolitano ao cair da tarde: precisava estar cedo no Apolinário para ajudar na montagem do dancing. Não que entendesse muito de cabos e caixas de som e lâmpadas e discos e tudo isso: creio que uma mão para carregar algo, ou uma alma para ser solidária, vale mais do que pesa. E, naturalmente, já estou falando de sexta-feira.

Acontece que saí de casa com sol alto e já vestido para a noite. Florescia na Parada 48 da RS040, florescia dentro do ônibus, florescia pelas calçadas da Cidade Baixa. Tinha a impressão de que todos me olhavam. Que baita bobagem! Ninguém estava nem aí, com certeza. Era eu a me estranhar, como se os outros soubessem como a roupa afetava a intimidade do ser. Por que mesmo optei pelo visual alterado? – questionava-me em pensamento.

Precisou passar algumas horas para descobrir a resposta. Ela veio logo depois do discurso – um balanço e algumas projeções – e, mais precisamente, ao apagarem-se as luzes e subir o som. A verdade é que dancei melhor e bem mais à vontade do que em outros tempos, do que em outras festas. Senti-me autorizado, íntegro. Fruir do casamento entre música e movimento pareceu mais natural. E, se esta conversa tiver alguma serventia, seja ela estímulo para que você se permita alguns aparentes excessos vez em quando. Dificilmente eu teria chegado tão longe, e de forma tão alegre, com uma roupa careta. Não ao som das Frenéticas!

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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