Serviço militar [Cyro de Mattos]

Posted on 19/12/2019

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Havia chegado a minha hora de prestar o serviço militar. Não agradava a ideia de passar as férias num quartel. O dia todo e durante a noite quando fosse tirar plantão. Nos messes de julho, dezembro, janeiro e fevereiro, durante dois anos, não teria a intimidade da cidade sensual. Sem desfrutar do ritmo fraterno de seu povo alegre nas festas de largo. Estaria ainda no quartel no período de aulas na Faculdade de Direito, sábados e domingos. O glorioso Exército brasileiro estaria privando-me do calendário feito de aventuras e surpresas agradáveis. Dividido entre o compromisso de cursar a Faculdade de Direito e  os deveres com a Pátria. Ficaria distante daquele mar azul com todo o ardor do verão pelas ondas.

O Forte de São Joaquim ficava na Cidade Baixa, próximo à feira de Água de Meninos. Ali funcionava o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Os alunos mais velhos gostavam de dizer CPOR com a boca cheia, ar superior no rosto e orgulho na voz. Houve mudança brusca nos meus hábitos quando passei a frequentar o quartel do Forte de São Joaquim. Nos primeiros dias parecia que o mundo havia desabado em cima de mim. Os dias no quartel davam a sensação que nunca iriam terminar, em seu peso diário. Chegava à nossa casa com o corpo dolorido, sem apetite e vontade de tomar banho, tão cansado vinha do quartel. Coitado do aluno que se queixasse daquela vida dura, fosse ouvido por outro que estivesse concluindo o serviço militar. O aluno do segundo ano, convencido do triunfo que se aproximava com a conclusão do serviço militar, expressão de desprezo e superioridade no rosto, não perdia tempo, investindo: “Pior é na guerra! Vá logo se acostumando, se não quiser ficar doido e ir parar no Sanatório Juliano Moreira”.

O tempo ia se encarregando de forjar um ambiente de companheirismo, entre brincadeiras e insultos. Amenizava nas competições esportivas, fazendo esquecer aquela vida carregada de disciplina. Aulas, marchas, corridas, exercícios, treinamentos e acampamentos.

No CPOR encontrava vários colegas da Faculdade de Direito, Cursavam comigo o Serviço de Intendência: Marcelo Gomes, o Marcelô 274, Cícero Xiri, Teófanes Lambreteiro, Orlando Baiacu, Márcio Porquinho e Noide Cabeça. Juntamente com outros, Alfeu Monstrengó, Comini Cê-Dê-Fê, Craque Oliveira, Aguiar Papagaio, fazem recordar-me agora momentos alegres daquele tempo. De brincadeiras improvisadas, aventuras loucas, como aquela de fugir do acampamento à noite, após o toque de recolher. Andar quase três quilômetros em busca de alguma vendola à beira do caminho, para ali beber fosse o que fosse à luz de lampião. Ficar batendo papo sobre as coisas de nossa juventude sem se importar com a passagem da noite. Retornávamos quase de madrugada para o acampamento, um sustentando o outro, bêbado de prazer. Desviávamos da guarda que estava de serviço, às vezes rastejando para entrar no acampamento e ir se acomodar na barraca.

Tantas aventuras se passaram comigo no CPOR, que certamente dariam para um livro de crônicas, se  relembradas com aquelas tonalidade que se caracterizam por uma série de mudanças corporais e psicológicas, num período marcado por fortes processos em conflito e esforços persistentes de autoafirmação. Descobertas e sustos esplêndidos.

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras. 

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