A crônica psicanalítica de Nelson Rodrigues

Posted on 19/12/2019

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Entre os usos que Nelson Rodrigues fazia da crônica, um dos mais notáveis era a memória – ele chegava a dizer até mesmo que essa era a única coisa que se salvava nele. Por vezes, chegou a se declarar efetivamente um memorialista, um homem suscetível a violentas nostalgias. Episódios banais do seu cotidiano eram suficientes para lhe trazer o passado: “Hoje uma simples bacia deflagra em mim todo um movimento regressivo, todo um processo proustiano”. Como resultado, evocava o Rio de Janeiro do passado, o Rio de Janeiro da sua infância, o Rio de Janeiro do fraque e do espartilho, bem mais solene, onde até o “bom dia” era dado com “uma ênfase insuportável”.

Desse período evocava episódios específicos, a que recorria constantemente, pois era, como ficou conhecido, uma “flor da obsessão”. O assassinato de Pinheiro Machado, por exemplo, era algo a que ele sempre voltava, pois ele havia sido um dos “mortos fundamentais” da sua infância, sendo certo que cada infância tem a sua antologia de mortos. O cronista reconhecia que a citação de datas e fatos antigos exalava “um cheiro de remédio de barata”, mas considerava isso ótimo – o remédio de barata, em verdade, era o próprio passado em forma de aroma. Era outro o Rio de Janeiro, como era outro o Brasil (na infância de Nelson, o Brasil tinha algo de Gógol). Mas o tipo de crônica que Nelson fazia não era aquela que se encerra no próprio saudosismo que tenta evocar.

De fato, é possível enxergar na crônica de Nelson Rodrigues uma função quase psicanalítica, como um instrumento de que o escritor se vale para melhor compreender as suas próprias motivações no tempo presente. Episódios traumáticos da sua infância podem ser trazidos à consciência porque eles ainda influenciam e orientam comportamentos da sua vida adulta. Nelson empregava às suas crônicas, não à toa chamadas de “confissões”, uma nota essencialmente pessoal, não hesitando em admitir fraquezas ou comportamentos que pouco prestígio poderiam lhe trazer. Afora a função de “chocar” o leitor, é plausível enxergar tais confissões como um processo de autoconhecimento.

“É possível enxergar na crônica de Nelson Rodrigues uma função quase psicanalítica, como um instrumento de que o escritor se vale para melhor compreender as suas próprias motivações no tempo presente”.

O cronista chega mesmo a problematizar a questão do psicanalista, cuja popularidade, em seu tempo, atribuía à dificuldade do ser humano em encontrar quem lhe escute. “A utopia de cada qual é encontrar um ouvinte. Nada mais”. A possibilidade de escrever em jornal era também a de ser lido por diferentes pessoas, cada uma delas, de certa forma, ouvindo os ruídos da alma de Nelson. Sua crônica, portanto, era também um meio de ser ouvido sem recorrer a uma sessão profissional. Diga-se, além do mais, que um dos melhores amigos de Nelson era o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como a justificar essa relação, o cronista reconhecia que, a toda hora e em toda parte, o passado se insinua no presente – embora visse nisso o patético da sua época. A influência da infância, em todo caso, seria tão decisiva que a própria existência do adulto podia ser questionada: “O que há de adulto, no homem, é uma pose. Mas o que vale mesmo é o menino que está enterrado em nossas entranhas”. Com essa consciência é que ele passeia por memórias e traumas infantis, não ignorando a impressão de estar simplesmente retocando e valorizando reações do menino que um dia foi.

O mergulho no próprio passado é um processo que pode gerar angústias tremendas, como as que Nelson sentia na igreja, vendo os círios nos altares e ouvindo o frêmito das rezas: “Há em mim o despertar de velhas culpas e a memória de não sei que abjeções”. A igreja era também um ouvinte, mesmo quando vazia, pois ouvia o eterno e o sagrado que estavam enterrados dentro de Nelson. Ao escrever “confissões”, de certo modo Nelson alçava o leitor à inusitada posição de sacerdote.

Por mais pessoais que possam ser as descobertas que se faz ao olhar para dentro de si, o cronista tenta encontrar linhas gerais que expliquem também o comportamento da sociedade em que vive. Nesse sentido, chega por vezes a resultados admiráveis, como é o caso de “História de lagostas”, um dos melhores espécimes da sua coletânea “O óbvio ululante“. Relata-se as alucinações que Sartre teve ao vislumbrar uma lagosta imaginária. A partir desse mote, Nelson faz o esboço de uma teoria que muito tem de psicanalítica. Defende que qualquer um de nós tem as suas falsas lagostas, os seus falsos valores, as suas irrealidades prodigiosas, mais saborosas, inclusive, que as verdadeiras:

As palavras são, em nossa experiência, como que as lagostas do Sartre. O sujeito que diz “eu te amo” fala de um sentimento que não tem a uma pessoa que não existe. Pode parecer exagero. Nem tanto, nem tanto. Retocamos e acrescentamos tanto ao ser amado, e o recriamos tantas vezes, que ele se torna a mais absurda e irreal das lagostas. O nosso “muito prazer” refere um sentimento que também não existe. E, no entanto, o que nós chamamos de “vida real” é tecido de “muito prazer”, “bom dia”, “te amo” e, pois, de frenéticas irrealidades.

Na sequência da crônica, Nelson conta uma história – se real, se imaginada, não importa – na qual aplica a teoria que acabou de levantar, em uma trama que é típica de “A vida como ela é”. Aliás, esse é um expediente comum do autor, ou seja, valer-se de histórias para justificar as reflexões que promove em suas crônicas, algumas, como a citada, de teor francamente psicanalítico. A partir dos estímulos e da histórias que chegaram até ele desde cedo (ainda menino, ele já era um fascinado pela grande dor, aquela que não passa jamais) e que sobreviviam dentro de si, o cronista tratava de retrabalhá-los de forma criativa. O resultado, com frequência, não era tanto o prazer estético que a história podia causar, mas a acertada avaliação que fazia de comportamentos típicos da sociedade. Em certa medida, pois, Nelson Rodrigues podia agir também como um psicanalista dos brasileiros.

A tensão entre passado e presente em suas crônicas abrange ainda temas como a antiga imprensa (“passou a época do grande jornalista”) e o novo teatro, mas Nelson também se dedicava a temas essencialmente contemporâneos, fazendo julgamentos que, naturalmente, eram ainda produto do modo como havia sido criado e das experiências que havia tido ao longo da vida. Nelson era, e não negava, um reacionário, criticando o progressismo nos costumes dos anos 60, e para isso, imagina-se, influenciava também a visão de aspectos do seu próprio passado que ele gostaria de manter.

O cronista era o primeiro a admitir: “Sou um homem de fixações inarredáveis. Insisto em assuntos e figuras de nossa época, como um pertinácia quase doentia”. E, realmente, nas suas crônicas figuram sempre Dom Hélder, Tristão de Athayde (esses sempre confrontados), os amigos Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Gustavo Corção, Antonio Calado, as influências literárias (Dostoievski, Dickens, o velho Dumas), como também estão as críticas ideológicas ou ao culto do jovem. O interessante é que essas obsessões, à parte do que possam significar psicanaliticamente, são expostas por meio de um estilo tão envolvente que o leitor pouco as sente. Nelson passa meia dúzia de crônicas falando da morte de Guimarães Rosa, mas faz isso de forma tão criativa, e usando ângulos tão variados, não deixando, aqui também, de recorrer às suas próprias memórias infantis, que a impressão que se tem é que a gente poderia ler um livro inteiro composto de crônicas sobre a morte de Guimarães Rosa.

É bem curioso observar Nelson confessar que sua imaginação é rala e escassa. “O meu processo é repetir. Arranquei de mim mesmo, a duras penas, uma meia dúzia de imagens. E, um dia sim, outro não, repito a metáfora da antevéspera. A televisão vive da reprises dos seus filmes, eu vivo das reprises das minhas imagens”. Muitas dessas imagens, contudo, podem ser vistas praticamente como “clássicos”, e o efeito no leitor é ao menos um sorriso sempre que as vê aparecer novamente, como quando alguém diz algo “de olho rútilo e lábio trêmulo”. Mesmo com “pouca criatividade”, há imagens das mais bonitas: “Sentiu-se atravessada de luz como uma santa de vitral”. É facilmente perceptível também que grande parte das imagens que usa, como do seu estilo como um todo, tem o objetivo de fazer graça – porque a autoanálise de Nelson é, também, bastante humorística.

Nelson, como todos nós, é um personagem complexo e contraditório. Sua tentativa de olhar para si, para o seu passado e, a partir disso, interpretar a realidade ao seu redor, é uma atividade prazerosa para quem lê. Se ele queria ouvintes, conseguiu também um bom punhado de entusiastas.

Henrique Fendrich 

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