Ao contrário [Cássio Zanatta]

Posted on 17/12/2019

4



Sou um sujeito esquisito. Não é de hoje, venho reparando nisso há pelo menos 50 anos. Por exemplo: desenvolvi uma inédita capacidade de amar ao contrário. Acho ódio um troço feio, vulgar. Assim, prefiro amar do jeito inverso.

Amo ao contrário os fios emaranhados nos postes. A torturante demora do enfermeiro em preparar a injeção. Espinha inflamada na véspera do encontro. Amo ao contrário a aranha menos distante que três metros, bem como as manteigas rançosas.

Amo ao contrário os sustos. Sustos de propósito, então, de um jeito que não dá pra desinverter. Todas, inquestionavelmente todas, as britadeiras do mundo. Quando no rádio toca aquela, aquela música, mas já nos últimos acordes, para em seguida começar uma ruim de doer.

Ao contrário amo ter sido feito de bobo e só perceber muito depois.

Amo do avesso atender ao telefone e ouvir uma mensagem gravada. Cachorro que não vai com a minha cara. Prepotência. Mesquinharia. Populismo descarado. Gente que espirra sem colocar a mão na frente, ou que jamais repara no outro e tem orgulho da sua própria ignorância.

Amo ao contrário quem torce ao contrário pela Seleção.

Muito ao contrário, quem abre a janela do carro pra jogar coisa na rua – geralmente, cigarro. Os sermões e discursos de mais de dez minutos, amo bem ao contrário. Quem fala mal de João, de fruta do conde ou do meu bairro. Abrir lata de bombom e dar com um punhado de clips. Um choque não metafórico. O espirro que desistiu e ficou guardado. A poça que se esconde à espera do pé no buraco da calçada.

De modo inverso amo as camisas que denunciam meu ganho de peso. Quem jamais admite estar errado. Quem resolve falar de política em plena areia da praia. Amo totalmente ao contrário quem erra a pontaria no banheiro público. Descobrir que a fruta estava estragada só dentro da boca.

O grave é que tenho reparado que é mais fácil desamar normal do que desamar os meus contrários.

Reunião interminável, dedo encravado, queimada, picada de mutuca, mau hálito, água com gosto, estar atrasado, excesso de coentro que rouba o sabor de tudo, amo ao contrário.

Mas já amei do jeito certo, devido, uma pessoa que hoje amo ao contrário. Admito que demorei para entender que não era possível, por pura teimosia minha. Quanto mais insisti, mais invertido foi virando o sentimento. E nunca entendi o esforço que ela fez, e com que dedicação, para nunca mais desvirar.

Depois eu é que sou esquisito – mas sou sim, sei disso. Há uns 50 anos, pelo menos.

_________

* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Posted in: Crônicas