Nosso tráfico [Mariana Ianelli]

Posted on 14/12/2019

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Mau tempo para os inocentes, o que é possivelmente a menos espantosa das más notícias, mas continuamos a trabalhar como formigas, trabalhamos por nossa conta e risco, trabalhamos com afinco, vivemos sob suspeita da tal vizinhança solidária, que mais não é do que o olho do olho da polícia, estamos em guerra, sob vigília, sob juízo, somos vulneráveis, somos massacráveis, mas é nossa vantagem sermos também quase invisíveis, é assim que deixamos passar o pão onde pão não tem havido, uma palavra trêmula com coração batendo dentro, uma casamata de horas, um lilás da mistura de três tintas, é assim que vamos catando mundos no aterro dos desperdícios, belezas dessas às quais chamamos pão, que é para ficar clara a necessidade que também temos disso, dessa espécie de abstrata e valorosa justiça, de um socorro de trincheira na guerra dos dias, uma reserva de víveres, somos desses que no meio de um incêndio pensam primeiro nos bichos, desses que, sejam quais forem seus adversários, sempre estarão do lado dos pivetes, dos pirralhos, dos guris, que é mau tempo para os inocentes, quem não sabe?, não é de agora, só parece mais explícito ultimamente, nas nossas vilas de Belém, nas quantas Raquéis chorando por seus filhos, mau tempo para os inocentes, mas o coração ainda não parou de bater dentro da palavra trêmula, nem paramos de deixar passar o pão, e essa sim é possivelmente a mais bonita e preciosa, a mais surpreendente e venturosa das boas novas de dezembro.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre (ed. ardotempo, 2013). Depois, escreveu Entre imagens para guardar (ed. ardotempo, 2017), também de crônicas. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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