Amor não morre [Madô Martins]

Posted on 13/12/2019

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Agora entendi. Quando fui escolhida para fazer parte de um projeto que espalha poesia pela cidade, fiquei feliz. Quando conheci a primeira intervenção do Coletivo (a)gente – meus versos sobre a mureta de um dos canais –, fiquei emocionada. Lembrei de Cortázar, Oliveira esperando Maga em uma ponte. E aí aconteceram desdobramentos: versos grafitados em um muro, no morro Nova Cintra; versos projetados com luz, sobre uma parede antiga da Rua XV, onde parece que o tempo parou.

Senti algo diferente, diante da última imagem e, no momento, não consegui traduzir o que me comovia. Só à noite, antes de dormir, quando em geral acontecem as grandes revelações, a emoção se mostrou por inteira.

Quando estávamos juntos, eu gostava de brincar dizendo que ia sair pelas ruas, com giz, tinta e pincel, pedaços de carvão, tudo o que tornasse possível a escrita em muros e paredes, para declarar meu amor sem pudor. Você ria, meio crédulo, porque sabia das minhas loucuras.

Mas não tive tempo de cumprir a promessa. A vida nos colocou em caminhos diferentes, um sabendo do outro apenas por notícias na mídia ou através de amigos. E, sem qualquer aviso, você partiu para sempre, deixando comigo esse amor que mal cabe no peito, essa sensação de que falta um pedaço, numa procura frustrante.

O verso que os artistas escolheram para projetar como um slide redondo é de um poema que escrevi pra você, quando já não morávamos no mesmo país e nos amávamos de longe. Só a primeira linha tornou-se pública, suficiente para acordar o que parecia adormecido, mas, confirmo mais esta vez, permanece latejando aqui dentro e acenando com a esperança de nos encontrarmos novamente, a qualquer hora, em qualquer vida.

Somos bóias marinhas

piscando em oceanos vizinhos

comunicando à distância

a saudade corrente

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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