Graciosa [Marcelo Tacuchian]

Posted on 07/12/2019

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Somos nove irmãs. Cada uma com aparências física e personalidades diferentes. Eu acho-me a mais bonita e jeitosa, mas sei que as outras pensam o mesmo sobre elas próprias. É nosso jeito de ser. Como em muitas famílias, pitadas pequeninas de rivalidade e generosas de amizade são como nos relacionamos. Algumas de minhas irmãs moram aqui bem perto, outras nem tanto assim. Valorizam mais sua privacidade, são mais reclusas, sei lá.

Temos orgulho de nossa origem e de sermos muito ligadas à terra.  Somos portuguesas de raiz (embora até muitos portugueses ainda tenham dificuldades com nosso sotaque), mas também fazemos questão de manter nossa autonomia.

Em comum, o fato de todas nós vivermos em sítios isolados que muitos dizem estarem localizados no meio do nada. Onde alguns veem isolamento, nós consideramos uma posição estratégica. Grande parte do mundo também já percebeu isso. Até uns americanos acampam por aqui, com nossa permissão, é óbvio.

Nossa região já não tem acessos tão complicados quanto no passado.  Os meios de transporte estão agora em outro patamar. Não pense que é difícil cá chegar. Podem achar-nos exageradas e pretensiosas, mas somos uma espécie de Constantinopla de Portugal. A ligação entre duas civilizações.

Muitos têm ideias tão pré-concebidas sobre nós! Acusam-nos de sermos gente simples e rurais. Como se isso fosse vexatório. Temos sim um senhor orgulho de nossas vaquinhas e plantações. E ainda existem alguns que até acham que o telemóvel não pega aqui em nossas terras. Quanta desinformação deste pessoal. Tudo aqui é moderno, viste? Essa ambiguidade faz parte de nosso charme.

Vem visitar-nos. Um queijo fresquinho direto de nossos animais vai estar sempre à disposição. Também temos doces e frutos do mar irresistíveis. Lembra-te que, afinal de contas, moramos sim em Portugal.

Mas não é só. Vais ouvir tantas histórias que nem imaginas. Sabias que já fomos caçadoras de baleias? Que produzimos vinhos e plantamos chá de altíssima qualidade? Que fomos a casa de um rei de Portugal e imperador do Brasil? E os tempos difíceis por que passamos? Muitas surpresas que eu e minhas irmãs teremos o prazer de contar para ti.

Ah, desculpe. Não me apresentei. Sou a Graciosa. Sem falsa modéstia, tenho certeza de ter o nome mais poético das minhas irmãs. Talvez a Das Flores discorde e a Terceira fique incomodada de ter a alcunha menos original. Mas, como disse antes, questões de família que resolvemos internamente.

Neste momento, acordo do meu cochilo. A sedutora e doce voz termina sua narrativa e meu táxi chega ao aeroporto. Embarco para os Açores.

Mal posso esperar conhecer pessoalmente a ilha da Graciosa.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

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