Xô, rotina! [Madô Martins]

Posted on 29/11/2019

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A possibilidade de dormir no sofá, desde que a conheço a partir de filmes, novelas e humorísticos, geralmente após uma briga de casal ou quando há mais hóspedes do que camas na casa, pela primeira vez ganhou conotação positiva.

Costumo ficar até tarde na sala, esparramada no sofá, travesseiro sob a cabeça, zapeando a tevê até o sono chegar. Quando vem, arrasto-me em direção ao quarto, retiro colcha e almofadas da cama, estico os lençóis, distribuo os travesseiros, apago a luz e, finalmente, deito.

Mas, naquela madrugada, o filme fora bom e estava tão bem acomodada, que resolvi ficar ali mesmo, para não interromper o bem estar do momento. O sono já me fechava os olhos, então foi compensador sentir o sopro fresco do ventilador, o silêncio do prédio por outro ângulo, a tênue luz da rua que atravessava a cortina, discretamente.

Dormi o sono dos justos, com enorme prazer de sorver a liberdade dos que moram sós e podem tocar a vida como bem entendem.

Acordei leve, descansada, sem que o corpo reclamasse da longa estadia no sofá. Ao passar pelo quarto, senti alívio por estar livre da rotina de arrumar a cama, pelo menos depois da noite em que permanecera intacta.

Dormir no sofá. O que normalmente é tido como punição, desta vez, foi privilégio. Por que não nos permitimos mais liberdades assim?…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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