Funcional [Daniel Russell Ribas]

Posted on 25/11/2019

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I’ve been waiting for a guide to come
and take me by the hand
Could these sensations make me feel
the pleasures of a normal man

 Disorder – Joy Division

Ouço e leio comentários sobre como este ano desestabilizou as pessoas com uma sucessão de fatos negativos e poucos respiros. Embora inesperada, no íntimo, sei que a desordem é a norma da vida. Acredito que se houvesse controle total, a primeira coisa que muitos fariam seria evitar a morte. Todo mundo tem medo disso, ou quase. Existe a morte em vida, em que a ausência de um elemento compromete todo o resto. As sensações se misturam numa marcha de mar revolto. É normal em períodos de intensa atividade emocional algo sair do equilíbrio no indivíduo comum. Mas e aqueles que já nasceram com um turbilhão para chamar de só seu? Um interruptor que se liga em dado momento e, depois, torna-se selvagem, aleatório em seu mecanismo? Para muitos, a inadequação é tão eterna, profunda e misteriosa quanto o oceano. Só que o tubarão morde sem a música para anunciar sua chegada. E não há adjetivos que a descrevam de maneira adequada, exceto o frio e áspero “disfuncional”.

“Quem é a pessoa disfuncional, onde elas vivem, como se alimentam, quais são seus hábitos?” Imaginar a voz do Sérgio Chapelin lendo esta chamada traz uma leveza que evapora na palpitação seguinte. E não deixa de ser uma ironia verídica, pois quem sofre de problemas emocionais se vê como objeto de estudo, um negócio exótico, distante de tudo e todos, existente apenas nas voltas em que dá. Se fosse uma reportagem na televisão, acho que teria pouca audiência. Afinal, independentemente do que passe, alguém em crise só tem olhos para si mesmo. E o desespero de sair, de enfrentar o mundo, aliado com a resposta duvidosa de sua impossibilidade?

Alguém lhe pergunta se você está bem, e você tenta rebater da melhor maneira, mas não sai como esperado, a pessoa repete a pergunta, você percebe que deu ruim e tenta de novo e piora a situação e tudo que torce é para que acabe logo e a raiva surge de você da pessoa de tudo. Nunca pergunte para alguém em mínimo grau de desequilíbrio se ela está bem. Ela não está bem, não será uma segunda vez que melhorará a circunstância. Também evite um tom de voz fora do usual. Não é um gato, é uma pessoa com que se dialoga, apesar de ela gesticular sem parar e disparar frases como uma metralhadora furiosa. Às vezes as pessoas são despreparadas para lidar a personificação de uma mente confusa. O louco é aquele que escapa ao padrão, mesmo que ele não tenha querido isso. Assusta, gera pena. Mas ele também come, vai ao médico, toma remédios, precisa pagar contas, viver. É como você, mas sem o acabamento de verniz social.

Uma característica intrínseca a estar vivo é nossa inabilidade em dominar por absoluto seu ambiente. Enquanto alguns se mantém na negação auxiliados por estímulos visuais, outros são jogados a versão mais crua desta sentença. Para quem não atravessou o espelho, resta ser funcional, esta utopia. E, como vocês, é um idílio que precisamos criar. Mas como, com uma mente que joga pingue-pongue com suas emoções? Talvez na loucura em si. Outros extravasam em uma atividade. Eu escrevo. Não porque preciso, mas porque quero. Este querer é um sinalzinho de alento. Por isso, consigo sobreviver ao noticiário. Quem sobrevive a si mesmo aguenta muita coisa. A funcionalidade é uma questão de perspectiva. Tem que vê o copo meio cheio ou meio vazio, e há quem quebre o copo. E como os vasos japoneses colados com ouro e cal, criam algo mais precioso a partir dos cacos: sua crônica.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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