O estilo sabático [Alexandre Brandão]

Posted on 24/11/2019

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(Imagem: Átila Roque)
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O olhar perspicaz, é isso que cobram de nós, de nós, os escritores. O meu, falo em tom de derrota, passa longe da perspicácia, do tino, que é sinônimo de perspicácia, da compreensão, que é um passo além. Escrevo mais sobre o que não vejo e talvez nem exista, mas, pontuo com estardalhaço, essa crônica não é nenhum lamento, autocrítica — que fique, no momento, no campo da política partidária —, nada disso. O que é então?

Atrasado, bem atrasado, tive um lampejo e, a partir dele, rabisquei uma teoria. Teoria é exagero, vou dizer uma coisa que saltou aos meus olhos hoje, um sábado que substituiu o resto chuvoso da semana por um sol ameno, um sábado entre outros mais de dois mil que vivi no Rio, a maioria deles no mesmo bairro.

Antes de anunciar a descoberta — palavra que deveria estar entre aspas, mas, como estou presunçoso, afinal nunca lancei uma teoria, ainda que, como disse, não se trate de uma teoria, vou dispensar as aspas —, preciso esclarecer que a tal descoberta não necessariamente valha para Paris, para os países nórdicos, nem mesmo para a região amazônica, quiçá não alcance São Paulo ou Niterói. Vou ser mais radical, não posso afirmar que valha para Madureira, São Cristóvão, no máximo aconteça o mesmo no Flamengo e em Copacabana, bairros adjacentes a Botafogo, esse pedacinho da cidade que, segundo li por aí, está entre os mais cults do planeta.

A tese: há um jeito típico e exclusivo de se vestir aos sábados pela manhã.

Como descobri? Observando as pessoas e a mim mesmo. No caso masculino, aquela camiseta velha, se não velha, amarrotada, a que foi usada num chope na quinta e depois ficou na bagunça do quarto, esquecida de ser jogada na roupa suja, encontra razão para ser vestida ou mais uma vez vestida. Pressionados a justificar tamanha deselegância, alguns devem se mostrar preocupados com o aquecimento global, com a necessidade de economizar água e evitar ao máximo o descarte de água com sabão em pó no esgoto urbano. Não importa se falam honestamente ou se é só mais uma forma de sair pela tangente, o fato é que, no sábado de manhã, os homens resgatam a camiseta velha ou amarrotada. A bermuda escolhida pode até não estar amassada, mas é velha, vê-se pelo modelo, ninguém mais traja aquele corte, aqueles bolsos, aquele tecido. No caso do chinelo, deve-se ponderar que os homens de Botafogo (amplio para os cariocas, sem medo de errar) não o descalçam nem para dormir, portanto, se o sábado exigisse uma camiseta nova e uma bermuda da última coleção, o chinelo seria exatamente o mesmo.

As mulheres continuam cultivando a vaidade, ainda que o mundo dê seus pulos e elas estejam exigindo igualdade de tratamento no mercado masculinizado, clamando aos céus o amadurecimento de seus parceiros, dando banana para a caretice de uma sociedade ainda horrorizada com a pauta multicolorida da sexualidade e tantas outras lutas políticas de suma importância. Aqui tenho de fazer um esclarecimento. A vaidade da qual falo não é vazia, doentia, feito aquela que escravizou uma conhecida. Conta-se que durante a vida toda seu marido nunca a viu sem maquiagem. Se ele tinha um compromisso muito cedo, ela se levantava uma hora antes e se embelezava, quer dizer, naquele tempo embelezar era isso. A questão está aí. Hoje a vaidade não se dá pelo outro — há casos que sim, paciência, é a tal exceção —, a vaidade é um estar bem consigo mesmo. Nesse aspecto, a mulher não cai na esparrela de vestir-se do amarrotado. Quer dizer, até veste-se, notadamente nos sábados matutinos, mas sobre ele joga um lenço, um cinto, um brinco, enfim, um adorno qualquer para dar um trato à informalidade. E, dessa forma, nessa hora precisa e nesse dia preciso, sai à rua.

Chego ao ponto: nas manhãs de sábado — ao menos em Botafogo, repito, não quero ser acusado de um generalista inconsequente —, circulam as pessoas no extremo de sua casualidade. Se vamos à feira; se vamos comprar um prego; se vamos procurar um ramalhete de flores vermelhas ou amarelas ou brancas, tanto faz; se vamos à farmácia ou a qualquer lugar, até o meio-dia de sábado, nosso traje é casual, com ou sem um toque de vaidade.

Sábado cedo é o dia e a hora em que a rua parece uma passarela de almas dedicadas à verdade. Por pouco não caminhamos nus, e é certo que estamos lindos.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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