E agora, Marquês? [Marcelo Tacuchian]

Posted on 23/11/2019

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Atrasado para um encontro, ao deixar o abrigo das árvores da Avenida da Liberdade em direção ao Parque Eduardo VII, não consegui resistir a uma olhadela para o céu de Lisboa.  Mesmo nesse prenúncio de inverno, a luz especial desta cidade já me amestrou o suficiente para este involuntário e prazeroso movimento de contemplação.

Lembrei-me, no entanto, de que não sabia exatamente o endereço do meu destino. Santo Google é sempre minha salvação. Saquei o telemóvel. E agora?

Nesse instante, algo inusitado ocorreu.

— E agora? Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos.

Levantei ainda mais os olhos e vi que a imponente estátua do Marquês de Pombal falava comigo. Sim, entre as centenas de deslumbrados turistas e apressados moradores, eu fui o escolhido para ser o interlocutor desta famosa personagem da história portuguesa.

— Sr. Marquês? É comigo mesmo que está a falar?

— Sim, mas pode me chamar de Sebastião José de Carvalho e Melo. Ok, para ti pode até ser simplesmente Sebastião mesmo.

— Quanta honra!

— Já sei que nos tempos atuais os títulos não significam muito. O que importa agora é o número de seguidores nas redes sociais.

— Mas, Sr. Marquês, digo Sebastião, se me permite tratá-lo por tu, ainda és muito lembrado aqui em Portugal. Essa tua própria estátua no ponto central de Lisboa é prova disso.

— Petrificado aqui em cima, coberto por esses malditos pombos que me sujam tanto, não consigo atualizar meu Instagram nem tirar selfies. Queria voltar aos dias em que era o maior influencer deste país.

— Concordo que um post com a tua frase mais marcante iria ter likes que não acabam mais.

— Pois! Tenho um talento especial para conduzir as massas.

— Mas, Sebastião, cá entre nós, essa frase famosa a ti atribuída não foi tu que falastes, não é?

— Não… bem… sim, confesso que eu me apropriei dela. Mas tu sabes bem que o que importa é a narrativa dos fatos e não os fatos em si, correto?

— E eu que pensava que isso era uma tendência atual apenas.

— Agradeço-te pela tua última crônica a lembrar o terremoto de 1755 em Lisboa. Meu período de glória nessa terra. Só acho que poderias também ter incluído meu nome na descrição dos eventos. Sabes bem que fui eu que reconstruí essa cidade.

— É verdade, mas, que ninguém nos ouça, o sucesso na recuperação de Lisboa e toda a modernização que trouxeste a Portugal não fizeram com que aflorassem em ti tendências, digamos, exageradamente tresloucadas e autoritárias?

— Não sei do que estás a falar.

— Aquelas execuções após o julgamento dos Távoras não foram algo que passaram um poucochinho do ponto?

— Mas foram eles que atentaram contra a vida do Rei D. José. Era meu dever fazer justiça.

— Parece existirem dúvidas sobre este fato. E, ainda assim, aquelas mortes em praça pública com espancamentos, cortes de membros e mulheres e crianças queimadas vivas foram meio que cruéis e desumanas demais mesmo para o século XVIII, não concordas, Sebastião?

— Eram tempos diferentes.

— Já não tenho tanta certeza assim.

— …

— Sebastião? Sebastião?

Como que por milagre a estátua emudeceu e o Marquês voltou a sua congelada e altiva pose com o olhar voltado para o Tejo e a Baixa Pombalina.

Parece que ficou chateado comigo. Mitos não gostam de ser contestados.

E agora? Calam-se as estátuas e seguem-se as vidas.

Eu, mais atrasado ainda, corri para o meu compromisso.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

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