Homens sem elã [Rubem Penz]

Posted on 22/11/2019

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Tudo disse e bem definiu Daniela quando disparou: “os homens de hoje perderam o elã”. Antes de se tornar letra morta, a expressão renasce em forma de alerta. E desconfio que o elã extraviado não terá recuperação em barbearias gourmet, em confrarias de vinhos ou cervejas artesanais, em cursos de gastronomia oriental. Tampouco recuperaremos o elã trocando fraldas, vestindo camisetas polo cor-de-rosa ou andando de patinete pelas ruas. Não que isso seja ruim, pouco, desnecessário. É, aliás, muito salutar no homem contemporâneo o apreço por posturas mais abertas, refinadas, sensíveis, engajadas. Desde que com elã.

Dificílimo de compor seus contornos, o que noto de mais próximo de elã é quando, numa conversa entre mulheres, uma diz para a outra que determinado homem tem “aquela coisa”. Pode ser aquela coisa que a encanta, aquela coisa que deixa ela curiosa, aquela coisa que desequilibra. Aquela coisa que faz o feio bonito e o bonito irresistível. Aquela coisa que desconhece tamanho ou forma ou idade ou profissão ou cor. Aquela coisa que absolve e condena ao mesmo tempo. Homens assim, sem dúvida, conservam o elã.

Mas, seria o elã congênito ou adquirido? Tanto faz. O sério na questão é a possibilidade de ele ser perdido. Quando, onde, por quê se perde o elã? Na primeira infância, no berço, por usar fraldas descartáveis ou sem coragem de explorar as texturas do chão com os pés descalços? Aos dez anos, no playground higienizado do condomínio com cercamento eletrônico e vigilância constante? Na adolescência? Na universidade? No primeiro emprego? Ao pé do altar? Quando, afinal? Onde, por Deus? E por quê!?

Caso a Daniela tenha razão, e desconfio que sim, estamos diante de um problema sério. Na média, homens não são muito bons em encontrar coisa alguma. Se não encontram o que está, ou deveria estar, no lugar certo, que dirá aquilo desaparecido. Por isso, para o bem de todos, as mulheres (e podemos começar pela Daniela) poderiam ajudar na recuperação do elã esquecido. Sutilmente. Dar pistas do que gostam para seus homens, apontar nos outros as atitudes acertadas (cuidando para não ferir suscetibilidades: sem elã, um homem se torna inseguro), elogiar quando eles acertam. Quando nós acertamos.

Faz parte do empoderamento feminino cruzar pelos corredores de um shopping ou nas alamedas de uma praça ao lado de um homem para chamar de seu… provido de elã. Creia: as outras estarão reparando.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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