Lancaster [Cássio Zanatta]

Posted on 19/11/2019

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Lancaster era o nome de um perfume muito vendido ali pelos anos 70. Havia a linha original, argentina, de qualidade superior, mas desse eu nada sei. Conheço a versão brazuca, popular e de preço acessível, encontrada em farmácias e até em supermercados, o que não era (ainda não é) exatamente um aval de qualidade. Sumiu do mapa, como tanta coisa de lá pra cá. Não se acha em lugar algum.

Opa. Não se acha, vírgula. Porque está bem aqui na minha frente, no armário do meu banheiro. Intacto. Foi o primeiro presente que comprei para meu pai, tão logo recebi o primeiro salário no meu primeiro emprego. Deve ter custado uma fortuna para um cidadão que ganhava pouco mais de um salário mínimo. Eu era revisor numa Editora e corrigia os verbetes de uma enciclopédia.

Ganhava pouco, mas me divertia. O diretor instituiu a peculiar regra de traduzir para o português o primeiro nome das personalidades citadas. Assim, fui apresentado a Ludovico Beethoven, Guilherme Shakeaspeare, João Lennon, Carlos Marx, Paulo Picasso. Não podia ir pra frente. A Editora, como o Lancaster, é apenas um verbete do passado.

Em vez de abrir e usar o perfume (que, vamos ser honestos, está longe de ser um Chanel), meu pai resolveu guardar como um troféu valioso. Assim o achamos, tal como o comprei, quando eu, minha mãe e meus irmãos fomos arrumar e dividir as coisas, depois que o pai se foi.

O tempo escureceu o líquido e amarelou o rótulo, que já não era chegado numa modernidade. O conteúdo, originalmente de 90 ml, evaporou um bom tanto. Talvez tenha perdido todo o álcool e sobrado somente uma indesejada doçura. Péssima para os perfumes, conivente com as lembranças.

Algumas vezes me dá a tentação de abri-lo, mas nunca o fiz. Temo que assim esteja abrindo uma Caixa de Pandora que vai ressuscitar o Centro de São Paulo, a Barraca do Gustavo em Itanhaém, Elizeth Cardoso, as moitas de sensitivas, os Opalas de 4 portas e nosso futebol. E essa possibilidade, não que dê medo, mas é demais, não dou conta.

Em todo caso, tento girar a tampa com minha força espantosa, que empolgou gerações, uma, duas, cinco vezes. Não consigo, ela emperrou (será que açucarou, como as tampas irredutíveis dos potes de geleias?) Deixe estar, talvez seja melhor assim. Devolvo o velho Lancaster ao armário, como uma preciosidade que a gente guarda na estante. É um lugar inglório, bem sei, entre um aparelho de barbear já sem corte e o fio dental. Mas é um canto seguro para que ele guarde sua gloriosa história e sobreviva, quem sabe, até a mim.

Não consegui abrir. Mas, de qualquer maneira, estou impregnado.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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