À espera [Madô Martins]

Posted on 15/11/2019

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Meu sangue índio se agita nas veias, diante das notícias recentes. Mais uma vez, o continente é invadido por predadores que se ocultam à sombra da cruz e festejam em torno de mitos, sonhando com o ouro que saqueiam por todo planeta. Há dementes, entre eles, e marionetes, iludidos, fanáticos, ingênuos. Não se pode ignorá-los, muito menos escapar desse enxame de bárbaros cujos tentáculos se camuflam e alcançam os confins. Estão por toda parte, com sua fala de beatos, seu moralismo barato, ódio e rancor.

Se pudessem, eliminavam todas as aldeias de uma só vez. Como daria muito na vista, tratam de matar aos poucos, envenenando a água e o ar, destruindo postos de saúde, assassinando líderes, queimando a floresta, resgatando doenças erradicadas, extinguindo direitos.

Sua lei é a que dita: aos poderosos, tudo. E o povo, que mantêm a riqueza daqueles poucos, volta a ser desprezado, expulso de suas terras, torturado e morto. Volta a andar de cabeça baixa, a estender a mão para receber migalhas, a ser condenado outra vez à ignorância, sem escolas, sem carreira, sem futuro, sem comida, sem sonhos.

Mas os donos do poder são tão generosos! Oferecem empréstimos, empregos temporários, escolas militares… Quando os holofotes são desligados, aumentam os anos exigidos para a aposentadoria, suprimem verbas de assistência social, reajustam impostos e tarifas.

Temerosos de perder o poder, combatem universidades, centros de pesquisa científica, líderes carismáticos. Compram os meios de comunicação e juízes, maquiam leis, fomentam a discórdia, espalham boatos, criam polêmicas, omitem crimes. São mestres em confundir e disfarçar.

Os índios, que são íntimos da natureza e dela adquiriram conhecimento milenar, sabem que nada é eterno. Aguentam o agora, sabendo que sempre existirá o amanhã. Mas, como em seu mundo não há mentiras, caem em emboscadas e até se matam, por não entender o homem lobo do homem.

Demora a fazer bom tempo, por estas plagas: o mal emerge faminto, longe e perto, perturbando nosso sono, tornando a vida desesperadora. Vai ser preciso rezar muito, invocar todas as boas energias, para neutralizá-lo e esperar que definhe, como erva daninha ao sol.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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