Bendita Feira do Livro de Porto Alegre [Tiago Maria]

Posted on 14/11/2019

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Caminho, com esse meu passo frouxo de cronista bissexto, sobre um tapete de orelhas de macaco despegadas das Timbuavas da Rua da Praia, em direção a Feira mais amada da minha Poa. É impressionante como o som do impacto das sementes no chão e o ruído que fazem quando pisoteadas, sugerem uma marcha em um campo de vidro craquelado, ou, um desfile numa passarela de plástico bolha. Desestressante, diriam uns. Perturbador, asseguram outros. O fato é que nada me incomoda, distrai ou demove quando em direção à Feira do Livro. Tudo é contexto, ritmo e poesia.  Tudo narra um conto. É tudo fábula e estranhamento.

Na Tenda das Mil e uma Histórias, contadores a caráter fazem decolar, de hora em hora, num tapete mágico, os pequenos e os grandes. Não há quem assista a uma contação e não saia encantado. No auditório do Memorial do RS, com a benção da Patrona Marô Barbieri, o Curso de Letras da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, esteve presente com o III Seminário Estadual: O Conhecimento Transforma. Este ano o tema foi “Juventudes”. Tudo (pa) lavra da Profa. Dra. Ana Maria Bueno Accorsi, de quem tive a honra de ser bolsista neste projeto de Extensão. Foram dois dias que semearam um semestre inteiro. Com o solo fértil e o clima favorável, sem dúvidas, a colheita será farta e nutritiva.

No espaço do Teatro Carlos Urbim, o recital show Virgínia Woolf, sintonias com a obra de Clarice Lispector, trouxe o poeta Luiz Coronel acompanhado das atrizes Fernanda Carvalho Leite e Débora Finochiaro e do músico Sergio Rojas. Sublime! No mesmo espaço (o seu Carlos deve estar em festa) o já tradicional, mas não menos revolucionário, Sarau das Gurias, criação da professora Jane Tutikian, nos brindou com leituras de textos de grandes escritoras do RS. No palco: Cláudia Tajes, Cíntia Moscovich e Lélia Almeida (essa mulher, gente, aff…), mediadas pela professora Márcia Ivana de Lima, fizeram o coração desse pobre moço suspender sístoles e diástoles.

A Maitê, minha filha número três, a caçula, da enormidade dos seus cinco anos, no Pavilhão dos Autógrafos, assinou o livro que ela mesma criou junto com os colegas, com a letrinha redondinha e caprichada mais amada do meu mundo. Enquanto derramava dedicatórias, fez pose para fotos, leu trechos da obra, comeu picolé, pipoca, churros e algodão doce. Tudo ao mesmo tempo. Depois dormiu, no meu colo orgulhoso, o sono honesto dos artistas. Estamos em 2019 e ainda tem gente que acha besteira ler para uma criança. Bom, estamos em 2019 tendo que desmistificar as vacinas e o Terraplanismo. Enfim, as ignorâncias não têm limites.

Faltam três dias para o encerramento da 65ª Feira do Livro de Porto Alegre e eu já não sei o que fazer para aproveitá-la em toda a sua sutileza. Ainda pego um tapete da Scheherazade, convido a Lélia Almeida e saio voando sobre as Timbuavas e os Jacarandás Mimosos, só para ver de cima o formigueiro de gente, e o colorido de roxo, amarelo e verde das flores e folhas tingindo tudo. E o colorido das páginas pintando a minha imaginação. A Lélia a me explicar as coisas (todas) com aqueles olhos de cigana mística….

Lembrei agora que tenho medo de altura. Acho também que chamaria muito a atenção sobrevoar a Praça da Alfândega com a Lélia Almeida em um tapete mágico. Fosse à noite, quem sabe? O convite está feito. Sigo então minha caminhada ao rés do chão, de onde os meus delírios alçam voo. E me deleito inteiro. E me comovo imenso. E me apaixono em letras garrafais. Bendita seja a Feira do Livro de Porto Alegre!

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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