O sinal [Daniel Russell Ribas]

Posted on 11/11/2019

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Peço, da maneira mais humilde que consigo, perdão, Senhor. Sou humano somente, e nada além disso. Obtive a graça de ver na madrugada penetrante o ouro. Quantos homens, mulheres e crianças não são abençoados, e de que não tomamos conhecimento? A vida, em si, não seria a maior de todas as graças e a morte, desta forma, a visão se fomos merecedores? Para os vivos, em particular?

Durante minha fase na Terra, fui rei. Como uma pessoa honrada, fiz aquilo que achei certo para o benefício de todos ao meu redor e o meu próprio. Com sorte, acertei quase tanto quanto errei. Não quero soar pretensioso, Senhor. Apenas é como analiso meu tempo neste momento em que ele se esgota, como os últimos riscos de água de um rio que seca. Tudo é breve e imprevisível. Só podemos esperar que tenhamos feito o certo, o bem por si mesmo. Nem sempre fui assim e, da adicção, sinceramente me arrependo. A doença toca a nós, e me deixei levar, apesar da busca pela cura, ou controle destes impulsos inférteis.

Apesar de meu desejo de me adereçar diretamente a Vós, sinto-me impossibilitado de fazê-lo apropriadamente. Nada nos prepara para o futuro, especialmente quando este surge na forma de perda. Enquanto tento prestar minhas contas, não consigo ser humilde o suficiente para controlar meus sentimentos de raiva, tristeza e medo. Muito medo. Como uma criatura selvagem encurralada, mantenho uma defesa feroz da minha vida, na inútil esperança de que tudo tenha sido um engano de meu predador.

Por favor, me dê mais um dia! Conceda-me alguns minutos para resolver minhas pendências! Sou incapaz de fazer a transição com serenidade sem pedir perdão às pessoas que amei e magoei! Queria poder remendar todos os atos que cometi no calor do momento, sem enxergar as sutilezas do grande tecido que é o destino.

Caso Vosso plano para mim já esteja fechado, peço, novamente, humildemente, que mostre àqueles que decepcionei um sinal de que lhes peço desculpas e que também os perdoei por terem me ofendido, se assim acharem. Um sorriso da pessoa amada, um abraço de verdade de alguém com que eles realmente se importam, um presente inesperado ou uma benção discreta, como a brisa que bate na nuca num dia quente de verão… Este é o último desejo de um moribundo.

Não faço este pedido para Tenhais misericórdia em meu julgamento. Minha intenção é outra. Como não posso e não pude mudar o mundo, gostaria de, ao menos, proporcionar um pequeno momento de felicidade para todos que afetaram minha vida. Que os que a alegraram, sejam recompensados por seu carinho para comigo. Que os que me entristeceram, recebam este gesto como o sinal de que há uma forma melhor de viver, não egoísta e aberta. Sei agora disso, porque eu era assim até o momento em que vi a estrela cortar o pano preto que baixava sobre minha alma. Foi quando percebi que poderia ser feliz… Foi rápido e transformou por completo o curso de minha vida. Foi quando testemunhei o parto de um novo mundo. A razão da eternidade em segundos.

As coisas mudam, enquanto esperamos por sinais…

Lego a advertência de que não devemos aguardá-los. Façamos os sinais. O altruísmo não como luxo, mas uma prática necessária. Assim, como um delirante, estendo minha mão para o mundo próximo. Talvez não compreendam, mas saibam que trata-se de uma herança, este amor que me inunda para que transborde no que vou deixar. Aceitem este sinal, analisem-no. Nestas divagações, encerro um conto velho, de alguém que aprendeu, entre idas e vindas. Volto à terra, com a esperança que reguem a semente que se forma e colham seus frutos. Olhem para o céu com os pés firmes. E caminhem. Que suas pegadas não se apaguem com a enchente vindoura. Que se tornem continente, onde todos são bem-vindos e vivamos em harmonia. Pois algo temos em comum, estamos vivos. E que este espaço dê origem a outros e o planeta seja amor.

Meu Senhor, estou pronto.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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