Motus dei [Marcelo Tacuchian]

Posted on 09/11/2019

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Duzentos e sessenta e quatro anos atrás, Pedro estava cansado e descrente. Trabalho duro durante toda a semana, corpo moído e, nesse primeiro sábado de novembro, como toda a gente, dirigiu-se com sua mulher à missa para honrar todos os santos, conhecidos e desconhecidos.

Festum Omnium Sanctorum. Não seria mais fácil se o padre usasse simplesmente “Festa de Todos os Santos” para descrever a celebração? Quem seriam os santos desconhecidos? Vai chover mais tarde? O que teremos para comer hoje? Os pensamentos de Pedro balançavam de um lado a outro.

O inverno já se fazia notar em Lisboa. Apesar de passar das nove horas da manhã, o sol não mais conseguia penetrar pelas estreitas ruas da cidade. Tudo escuro, úmido, frio e estranho. Pedro e sua esposa Ana estavam prestes a entrar na igreja quando foram atropelados por um estrondo bestial. O urro, onipresente, não se sabe se vinha das profundezas ou dos céus.

Sinos badalaram de modo desordenado em paradoxal uníssono. Jamais se viu tamanha saudação como naquele dia de festas de 1755. As cerca de quarenta igrejas da cidade a desabar. Em um dado momento, calaram-se os sinos. Só o tremor, vindo de nenhum lugar e de todo canto ao mesmo tempo, a chicotear por sete longos minutos.

Ana e Pedro, separados pela cratera que se abriu entre eles e a poeira que daí brotava, mal podiam se ver agora. Por caminhos diferentes, cada qual correu para o Terreiro do Paço. A principal praça aberta de Lisboa deveria ser o local mais seguro para tentar entender o que se passava e orar.

O barulho cessou. De costas para o rio, os abençoados que haviam lá conseguido chegar levantaram os olhos para o céu temendo o momento em que seriam engolidos pela nuvem negra que já envolvia quase toda a cidade.

Não mais a terra tremeu. Trinta curtos minutos depois, o incompreensível ressurgiu em outra forma. Desconfortavelmente próxima a todos, uma onda de proporção jamais vista violentava o Tejo. Embarcações indefesas foram arremessadas para a praça. Pedro e Ana não foram mais localizados.

Dentre os poucos sobreviventes estavam as velas das missas não rezadas que continuaram a tremular por baixo dos escombros de madeira, tecidos e corpos. Uma infindável semana depois, Lisboa ainda ardia em consequência do incêndio que se sucedeu.

Dizem as más línguas que, enquanto todas as igrejas foram abaixo, os prostíbulos da cidade ficaram intactos. Lenda ou realidade, homens saídos desses locais ou não se sabe bem de onde começaram a pilhagem do que restou.

Terra. Água. Fogo. Roubo.

Portugal, de joelhos, terminado. Portugal, de pé, refundado.

Nação valente e imortal.

Esta crônica é uma homenagem ao Pedro, a Ana e aos estimados trinta mil portugueses que morreram em consequência do terremoto de novembro de 1755. Que Deus os tenha.

 

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

 

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