Lana e a lâmpada [Rubem Penz]

Posted on 08/11/2019

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Antônio César passeava pelas dunas cedo da manhã deixando Lana, sua dachshund, correr livre da guia, quando topou com um brilho estranho na areia. Acocorou-se diante do objeto e notou ser uma espécie de lâmpada maravilhosa. Esfregou em busca do provável made in China e, do nada, materializou-se diante dele uma morena estonteante e sumariamente vestida. A faiscante odalisca eclipsou o sol.

– Amo, bom dia! – disse aquela voz doce e suave, quase num sussurrar.

Antônio César se ergueu num sobressalto e passou a olhar para todos os lados, em busca de câmeras escondidas:

– É do Programa do Gugu? Do Faustão? João Kleber, Luciano Huck, Mion?

– Não conheço essas pessoas – respondeu em português enviesado. – Vim atendendo ao seu chamado, Senhor.

– Como assim? Não lembro de tê-la chamado, meu docinho.

– Escutei seus clamores noite após noite, em sonhos e planos secretos. Vi olhares alongados para toda morena que cruzasse seu caminho, escutei alterar os batimentos cardíacos, captei o ardor em sua face, o volume em sua…

– Opa, opa! Sou um homem casado. Bem casado. Isso são, ãh, foram, apenas fantasias!

– É chegado o tempo das realizações. Eis-me aqui, vamos?

– Vamos?! Pra onde?

– Para onde o Senhor quiser. Dá a mãozinha…

Antônio César olhou para suas mãos. Numa, a lâmpada recém recolhida do chão. Na outra, a guia da Lana, que retornava correndo em sua direção com algo que parecia ser um peixe morto na boca. E, quando o cão ameaçou pular nas pernas da morena, ela gritou Morta!, ordem obedecida com muito realismo.

– Você não, não… – Antônio César evitava terminar a frase.

– Atendi ao seu desejo? É isso que você quer perguntar?

– … a Cleonice não vai gostar nada dessa história.

– Amo, acredite: você não tem todo o tempo do mundo. Então? – ela estendeu aquela mão de maciez adivinhada. – Vamos? Hum?

Antônio César não teve alternativa. Deixou lâmpada e guia atiradas ali mesmo por causa da pressa. Pegou-a no colo e pariu. “Foi o peixe, foi o maldito peixe”, pensava em como se explicar ao veterinário.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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