O circo [Cyro de Mattos]

Posted on 07/11/2019

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Como me esquecer do circo? Ficava a semana toda aguardando que o homem nas pernas de pau anunciasse a sua chegada. Quando isso acontecia, saía em disparada atrás dele, o coração preste a sair pela boca. Juntava-me a outros meninos, passando a fazer parte do coro de vozes ao redor do homem nas pernas de pau. À pergunta que ele repetia a todo instante, “o palhaço o que é”?, nossa resposta era uma só, explodindo a gritaria no ar, “ é ladrão de mulher!”

Os circos que apareceram no início eram pequenos. Num desses, a lona furada, poucas luzes na fachada, conheci uma dupla de palhaço que nunca esqueci. Bacurau com a sua cara de mau e Perereca que sempre levava do parceiro um tapa na careca. Bacurau era catroca e tinha o nariz de pipoca. Perereca era um contador de piada sem igual e tinha um calombo na careca.

O circo ficava um mês na cidade. Filho de pais pobres, eu e meu irmão só tínhamos direito de ir ao circo uma única vez, geralmente no domingo. Sempre dava um jeito para ir ao circo mais vezes. Entrava pelo buraco da lona quando o vigia descuidava-se. Vendia jornal na venda, gibi velho na porta do cinema, até garrafa, com o dinheiro apurado comprava o ingresso do circo. Lá estava eu com o coração a bater acelerado, antes que desse início o espetáculo. Não me importava que os números fossem quase sempre os mesmos. Era bom sorrir com as piadas do palhaço, ficar todo arrepiado com o salto mortal que davam os irmãos Vilalba, lá em cima no trapézio da morte.

Foi grande a emoção quando apareceu o primeiro circo com as suas feras amestradas. Leão, tigre, elefante. O chimpanzé andava de bicicleta, fazia piruetas em cima da zebra, dando voltas seguidas no picadeiro. E o sensacional número do globo da morte? Era mesmo aquele circo o maior espetáculo da terra. Acrobatas, trapezistas, equilibristas, malabaristas. Dois times de cães pequenos faziam a bola correr num vaivém que nunca cessava. Flamengo contra o Vasco, a garotada numa gritaria doida quando o gol era marcado. O domador botava a cara dentro da boca do leão. O circo todo em silêncio, um frio corria na espinha, os aplausos demorados para aquele número inacreditável.

O circo sempre foi para mim aquele mundo feito de aventura, riso e humildade. O mundo permanente de graça na boca escancarada do palhaço com a linguona de fora. Certamente comia palha e aço, daí ser chamado palhaço. Doçura no frio com a equilibrista que tinha pernas formosas. Vontade de voar como pássaro com aqueles trapezistas lá no alto, no salto de vida ou morte. O perigo vivido com o domador que si arriscava na aventura de fazer com que cinco leões deitassem junto a seus pés, como se fossem uns pequenos grandes felinos bem comportados. Em mim, sensação de que a morte não existia. Meus olhos rodavam rápidos com aqueles dois irmãos que cruzavam e se encruzavam nas motos barulhentas dentro de um globo, onde circulava a perícia feita de nervos e aço.

Como me esquecer da pipoca, algodão doce, cocada, amendoim torradinho e roletes de cana?

Um dia, eu e os amigos resolvemos fazer um circo no quintal. Com palhaço de pernas tortas, a menina Dolores como a fada das flores, Dom Chicote, o incrível domador e suas terríveis feras, Lero-Lero, o cão que dançava bolero, e Cheiroso, o gato manhoso, além do trio que tocava zabumba, sanfona e reco-reco. Era o circo do Ciroca com palco armado embaixo de uma mangueira. O bilheteiro, o próprio dono do circo, feito um general usava grande chapéu de jornal e tinha uma espada de pau.

Uma pena aquele circo ter dado apenas um espetáculo. A plateia não se conformou com a ausência do macaco Caolho, que deveria subir no mastro de cabeça para baixo em menos de um minuto. Entre assobios e gritaria, a plateia começou então a jogar tomates no verde homem-jiboia e no anão Pimpão, que de tão pequeno não saía do chão. Foi tomate para todo lado, assovio, corre-corre, empurrão, nome feio, vexame. Quando o pano caiu por terra, foi logo rasgado em pedaços. O espetáculo foi encerrado com a plateia toda gritando sem parar um só instante: Queremos o macaco Caolho! Queremos nosso dinheiro de volta! Queremos mais espetáculo!

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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