Eu não queria perder sua amizade por aquilo [Cássio Zanatta]

Posted on 05/11/2019

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Estava este escriba no metrô, esperando o trem na plataforma quase vazia. A alguns metros de mim, dois jovens conversavam. Sou um pouco futriqueiro, admito, mas foi por acaso e pelo pouco barulho em volta que ouvi a moça dizer ao rapaz: “Eu não queria perder sua amizade por aquilo”.

Fingi não ouvir, olhei para o chão, o trem chegou, entrei, mas a frase de jeito nenhum quis ficar na estação. Entrou comigo, tomou seu lugar ao meu lado e foi logo me cutucando: O que será que houve? Que será que ele fez? Que algo tão grave poderia acabar com a amizade entre eles? Tão misterioso quanto o motivo de uma amizade nascer, é o porquê dela acabar.

Será que um dia ela precisou muito do seu apoio e ele faltou? Preferiu ficar assistindo a uma série da Netflix em casa a ir consolá-la no bar? Recusou-se a passar cola na prova? Deu uma de machista, preconceituoso ou dono da razão sem razão alguma? Ou mais grave: descobriu nela algo mais que uma amiga?

Isso acontece: aos poucos a gente vai reparando que os olhos isso e aquilo, se acostuma com o jeito da boca dizer, e quando vê, até de soluço vai gostando. Nesse caso, o problema é que acontece (muito) da amiga corresponder à amizade, mas não a outros encantamentos. Daí a balança perde o equilíbrio, ele confunde qualquer procura com uma aceitação e o único jeito é ela se afastar.

O que é triste. Afinal, como foi dito na estação, ela não queria perder sua amizade, já que sente por ele algo bonito, precioso, mas pra que ir além, trocar juras, sentir ciúmes, querer estar junto o tempo todo, até no dia em que ela só quer ficar em casa bordando?

Ou foi ela quem causou o quiproquó pelo qual a amizade agora balança? Sabotou uma namorada dele de quem não ia com a cara? Magoou o amigo com alguma brincadeira infeliz? Ou acreditou na intriga que uma conhecida em comum inventou? Muitas podem ser as razões, umas mais razoáveis que outras, às vezes a gente nem percebe o que fez ou a dimensão do que fez.

Se a gente for pensar, vê que já deu motivo para separações (sim, amigos também se separam). Com um deles, arreguei e não o defendi numa briga – mesmo assim, ele continua meu amigo. Outro, olhei meio diferente para sua namorada – mesmo assim, ele continua meu amigo. Com uma amiga, aconteceu o que não era para acontecer – e ela continua (espero). Outro ainda, antes do galo cantar, o neguei três vezes – e mesmo assim.

Certas amizades morrem aos poucos. Numa mudança de escola, de casa, de país. Até numa mudança de idade a amizade morre. Os assuntos se distanciam, os interesses viram outros; umas vão, outras vêm, a vida montando seu quebra-cabeça.

Olho para meu colo e vejo uma pasta com uns papeis dentro. Ah, é. Volto para o dia, para o motivo de eu estar ali, a obrigação a cumprir assume o pensamento. O trem diminui, para na estação, desço já assumindo um ar sério e apressado, a porta se fecha atrás de mim, deixo a frase seguir viagem sem olhar pra trás.

E encontro na escadaria o rapaz, sozinho.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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