Uma semana e um ano [Daniel Russell Ribas]

Posted on 28/10/2019

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Tenho escutado com frequência das pessoas que estou sereno. Sereno…, penso, e agradeço. Logo em seguida, reflito sobre o que realmente querem dizer. Seria mais calmo, contemplativo ou amigável? Muitas vezes as pessoas falam algo quando querem dizer outra coisa. Trabalho com palavras, logo, desenvolvi um sentido que busca decodificar o que está por trás do texto. Cada palavra esconde um mundo, e cada mundo é feito de estados, que são compostos com o tempo. Sereno, à primeira vista, parece abarcar tudo numa forma mais direta. É um estado indefinível, que surge com a comparação pelo tempo, mas cuja visualização é possível a olho nu. A serenidade torna-se humana, pois, ao contrário da paz, é uma condição líquida e confortável. Não traz o peso da paz, com sua gravidade absoluta. É uma sensação.

O que terá acontecido nesse tempo em que me transformei em sereno? Muito, óbvio. Ainda assim, não tenho gravado os degraus que subi para alcançar esta epítome. Apenas a vaga insinuação de como foi demorado e, agora, é como se apenas segundos tivessem transcorrido. A gratidão pela experiência e seu resultado são naturais. Contudo, aquele espanto que coça atrás da orelha me põe vigilante. Cuidado com o que deseja, você pode conseguir. Pois é, quis ser uma pessoa melhor e, sem perceber, noto que avancei no intento. Como conservar esta serenidade, se não recordo com exatidão o que fiz para ganha-la? A aparência é plácida, mas a mente segue em suas viagens excitadas. Imagino um pato: quieto na superfície enquanto pedala feito doido debaixo da água.

Não sou o mesmo de há uma semana e um ano. Só o fato de ter chegado a esta marca me surpreende. Não que espere cair morto a qualquer instante, porém fico maravilhado quando o calendário apresenta o inevitável. O tempo passa, mesmo que as pessoas permaneçam como antes. Isto é o esperado. Daí o choque da mudança. Ainda me acostumo com a novo lar, inspeciono quartos e mentalizo onde posso colocar os móveis. Faço planos que ambicionam a estratosfera. Quem nunca quis viajar até a lua? Mas devo plantar meus pés firmes, pois acabei de chegar, sequer assinei o contrato de locação com a serenidade. Espero renovar, embora o inquilino, que é a vida, seja exigente e um tanto rabugento.

Gostaria de gritar ao planeta sobre minha serenidade, mas não é isso que pessoas serenas fazem. No lugar, escrevo, pois não consigo domar meu lado excitável. Eu mudei tanto assim? O cabelo está maior (e a pança também), uso uma armação de óculos diferente. É o que vejo. A atitude, contudo, é tímida em se apresentar a mim, enquanto para os outros ela berra. Sinto-me idêntico ao que fui. Para ser honesto, a forma como lido com situações adversas tornou-se menos atrapalhada. A empatia, esta criaturinha picaresca, é vigilante. Logo, adoto tons mais sutis e atentos. O que alguém quer dizer quando grita? É uma ameaça, raiva ou um pedido de ajuda? Preciso considerar isto porque a sobrevivência da espécie reside na habilidade de saber ouvir. Se um não quer, dois não dançam, assim é com brigas. Saber defender seu ponto de vista é tão importante quanto saber exercê-lo. Para isso, o outro torna-se meu reflexo em potencial. Poderia ser eu. Sou eu.

Sem fechar a questão, acredito que seja a consequência de olharmos o mundo com a aceitação de que podemos estar enganados. Que isto é normal, logo todos merecem uma segunda chance. Se eu busco o melhor em mim, devo desejar o mesmo para o outro. E esperar que ele consiga. Ele, o mundo. Eu, o meu mundo. Quando nos limpamos de toda intoxicação, somos o mesmo. A serenidade, como os sonhos, vem quando estamos de olhos fechados. Escuta só.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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