O mestre de obras que amava Hitchcock [Marcelo Tacuchian]

Posted on 26/10/2019

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— Simples, Doutor. Arranjo-lhe uns picos — sugeriu-me o Pontes.

Ainda me causa algum embaraço, depois de dois anos já morando em Portugal, eu ainda ser surpreendido por alguma palavra ou expressão que me coloca um perceptível ponto de interrogação na testa. Até quando vai durar essa minha alfabetização?

Voltando à proposta do mestre de obras, meu hemisfério português do cérebro fez as sinapses necessárias e lembrei-me da propaganda de um energético que havia visto alguns dias atrás: “Beba Aquarius. A incrível sensação de te sentires cheio de pica.”

Como já deixei a infância faz alguns anos (acho eu), não dou mais aquelas risadinhas nervosas tão típicas dos brasileiros quando topam pela primeira vez com expressões deste teor. Por aqui, todo mundo sabe que “cheio de pica” quer dizer, inocentemente, “cheio de energia”.

— Mas eu não quero que elas fiquem mais fortes, ó Pontes. Quero que saiam daqui e me deixem em paz! — fiz a analogia com o anúncio e respondi de bate-pronto.

— Doutor, garanto que com os picos elas não voltam mais.

E, mesmo com todo o esforço para fazer com que a interrogação desaparecesse da minha testa, exausto, desisto.

— Pode elaborar um pouco mais, Pontes? Não repara, sou meio fraco para perceber as coisas.

— O Doutor viu aquele filme antigo dirigido pelo gajo gordinho careca?

— Está frio. Mais explícito, se faz favor.

— Aquele que ficou famoso com a cena da mulher que é esfaqueada quando estava na casa de banho. Shizz, shizz, shizz, shizz. Esses sons agudos me dão um nervoso até hoje!

— Ah, “Psicose”, dirigido por Alfred Hitchcock, é o filme a que você se refere? Você pretende fazer alguma coisa parecida na minha casa de banho???

O ponto de interrogação da minha testa sumiu e, no seu lugar, passou a piscar aquele famoso quadro “O Grito”. Munch e Hitchcock devem ter gargalhado de satisfação nas respectivas tumbas.

— Esse mesmo. Cá em Portugal, chamou-se “Psico”. Assisti a tudo que ele fez. O filme que mais gosto é daquelas gaivotas que, do nada, tornam-se ultraviolentas e, como vocês falam no Brasil, tocam o terror numa cidade costeira. Dizem até que foi filmado aqui em Cascais.

— Ah, “Os Pássaros” é esse filme. Gostei muito também. Há divergências se foi mesmo produzido aqui, mas concordo contigo que bem que poderia sim. As gaivotas cá de Cascais são até mais agressivas que as do cinema.

— Isso mesmo, Doutor. Colocamos uns picos bem afiados no telhado e quero ver elas pousarem aqui novamente.

Ignorância, terror e agora esperança. Como minhas emoções se alternam tão rápido nesta terra.

Saquei o “Novo Dicionário do Marcelo”, apelido carinhoso dado à minha cadernetinha que sempre carrego para momentos como esse, e rabisquei lá: “picos = espinhos”. Mais uma palavra para a coleção. Daqui a pouco tenho algo para competir com o Houaiss.

Branquinhas, mas nada angelicais, espero que as gaivotas não me importunem mais. Tudo graças ao meu mestre de obras cinéfilo.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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