O céu das amadas [Cássio Zanatta]

Posted on 22/10/2019

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A partir de “Existe um céu”, de Francis Hime

Conta a canção que “existe um céu onde moram as amadas que o coração desinventou”.

As minhas deixaram cada uma um pedacinho cá dentro e para lá foram – umas feito sopro, outras, tufão. Nesse céu de nuvens brancas se equilibram, que o amor vive é na corda bamba. Estranhamente, no ar nasce flor, faz arco-íris mesmo sem chover, e o mel e trovões femininos abafam a gaitinha do afiador de facas.

As amadas, sempre belas, jamais envelhecem, ainda que a memória não precise os contornos. Minhas contemporâneas em nada mudam: vestem as mesmas roupas que não estão fora de moda, estão fora do tempo. Só não sei explicar por que motivo os cabelos de algumas mudaram de cor e outras claramente trocaram os lábios.

Guardam boas lembranças de mim, mesmo as que dei poucos motivos. Nenhuma guardou minha foto na carteira.

Uma tricota enquanto murmura uma canção de que eu também gostava; outra, planeja grandes edifícios; tem a com três “as” no nome; essa tem birra de falar ao celular; aquela comanda reuniões importantes e manda todos calarem a boca.

As amadas pouco se veem. Longe de ser ciúmes: cada uma está ocupada com um novo amor, todas seguem sendo amadas, e bem amadas, por outro alguém. Sentimento teimoso, sobrevive às mudanças de endereço.

No céu das amadas há espumas e lençóis, mas não andaimes. Ao partirem de mim, deixaram gotas pelo caminho. São capazes de saltar de nuvem em nuvem, algumas até asas têm, mas preferem se espreguiçar por horas. Nunca deixa de haver lua, e é um mistério que sua claridade não interfira no brilho das estrelas.

Cada uma com sua dose de doçura, de loucura, paciência ou arrebatamento, foi necessária para que eu chegasse até aqui. Espero que eu também tenha contribuído de algum jeito. Jamais saberei: no céu das amadas não há contabilistas.

Cada vez que a gente é sequestrado por determinado perfume, encontra uma foto na gaveta, tem notícias através de outra pessoa ou revê um filme a que se assistiu junto, toca um sino dourado no céu das amadas. O mesmo que dá ideias a jardineiros e escultores.

Para lá eu as levei. Há espaço para todas, não são tantas. Me desculpem se sou zelador relapso e passo meses, quando não anos, sem me lembrar. É que de algumas até o rosto não me recordo direito. Mas, de tempos em tempos, faço subir ao céu das amadas um sorriso, um verso, um pensamento bobo de tudo, mais de gratidão do que de qualquer outra coisa.

Aliás, não há outra coisa.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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