Dona Fernanda [Cícero Belmar]

Posted on 21/10/2019

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Para dar conta da agitada programação no teatro e na música, eu e um amigo, o cantor Xico de Assis, combinamos de assistir ao maior número possível de peças e shows que ocorressem no Recife. Tipo farra cultural. Sim, um exagero, mas foi nessa condição de arroz de festa que vimos, em anos diferentes, três peças protagonizadas por Fernanda Montenegro.

Comprávamos os ingressos no crédito, dividíamos numa infinidade de vezes, apertando o orçamento, voltando para casa de ônibus. Mas, comemorávamos, por cima da carne seca. Assistimos a Dona Doida, montagem a partir de textos de Adélia Prado; The Flash and Crash Days, a questionável obra de Gerald Thomas; e Dias Felizes, de Beckett, com bela direção de Jaqueline Laurence.

Fernanda Montenegro fez 90 anos, na semana passada. Podemos dizer que vê-la nos palcos, há cerca de 20 anos, fazendo aqueles papéis, foram momentos únicos, em que confirmamos, sem querer, a teoria de que teatro é a arte do efêmero. Afinal, uma sessão acontece em seu tempo e naquele instante. Mesmo que o espetáculo se repita outro dia (personagem, marcações, voz, expressão, gestual, ainda que tudo isso seja o mesmo), ainda assim, será sempre outro show do artista.

Restaram os vestígios de nossa memória. No espaço e no tempo.

Todo mundo já disse, mas todo mundo terá que dizer sempre, Fernanda Montenegro é uma artista que se renova, múltipla em sua diversidade. O que nela permanece é a arte dramática como lugar de eloquência. Sabe uma grife? Quando ela está no palco, é arte. Na televisão, a mesma coisa. No cinema, nem se fala. A atriz tem familiaridade com todos os meios de expressão e sua máscara é polivalente.

Uma das coisas que me deixa reflexivo, na história de Dona Fernanda, é como ela soube preservar o eu artístico. É uma mulher de 90 anos, com a vida inteira dedicada à representação. Não é um gênero qualquer. Como disse lá na frente, é transitório, e portanto estamos falando de uma pessoa que dedicou a vida inteira ao que é passageiro e líquido.

Assim, ela chega aos 90 anos jogando com a modernidade e com longevidade artística. Sem jamais dar escolha à mediocridade.  O que dizer mais dessa artista? Ela só não convence os estúpidos. E eles existem. Pois não é que um político da direitona, meses atrás, criticou a maior dama da nossa dramaturgia, a nossa estrela maior, a nossa diva?

Liguei para Xico:

– Viu a bobagem que o ministro falou da nossa Fernanda?

Foi o suficiente para ele lembrar da história que dá base a essa crônica, com os comentários e elogios aqui narrados.

O tal político simplesmente não tinha autoridade moral ou o mínimo conhecimento artístico para falar de Fernandona. Um zé ninguém. Tudo o que se sabe a respeito do jacaré é que vive no pântano de Brasília, onde chafurda nas proximidades do Paranoá.

Xico me respondeu que o pior desse governo não é só o fato de ele ser da extrema direita. É o mau gosto. A ignorância. A falta de informação. De inteligência. De estética. É o governo mais cafona jamais visto na história.

– Vivemos na República bôco-môco, disse.

Nunca mais eu tinha ouvido falar em bôco-môco. Uma expressão que se dizia antigamente no Recife e que significa estar degraus abaixo da cafonice. É o ridículo, o brega-chinfrim. Achei o xingamento perfeito.  Xico me representa.

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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