Luar sobre Teresópolis [Daniel Russell Ribas]

Posted on 14/10/2019

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Na volta para o albergue em que me hospedo, olho para o alto e gracejo: “A lua que aqui cheia não encheia como lá.” Ruinzinho, mas não resisti. Talvez a belíssima iluminação que pontuava o céu aberto merecesse uma homenagem mais digna. Porém, calho de ser talhado pela infâmia, primeiro, e a poesia, lá pra trás…

Há dois anos não vinha à serra. Como me sinto à vontade aqui me espanta de início. Logo, no entanto, relaxo e usufruo de sons da natureza no lugar de carros e helicópteros. Minha mudança de humor é tamanha que até o barulho da obra (Sim, o hostel, assim como o apartamento no Rio, passa por reformas) não me enerva. É pontual, discreto, como se as marteladas daqui pedissem licença antes de darem seus golpes.

Estar cercado de verde é outra benesse. Como um bom filho do Senhor das Matas, prezo pelo acesso a terra e vegetação. Ando descalço em busca desse toque frio das pedras e do calor incidente do dia. No lugar da enxurrada abrutalhada de infravermelhos habitual, onde estou os raios solares me conduzem por uma correnteza plácida.

E ontem foi lua cheia em Teresópolis… Bom, suponho que tenha tido em outras localidades, evidente. Mas não como aqui, fato. Para ressuscitar um chavão, é a manifestação de magia no ar. Entendi por quê gozavam tanto aqueles poetas românticos. Difícil explicar… E, como mencionei, não sou poeta, mas um piadista adolescente. O que chegaria perto é uma sensação de paz e plenitude escorridas. Como se aquele imponente centro branquíssimo sussurrasse as voltas que a vida dá. Se estamos envoltos em atribulações e anseios, algo bom e revigorante pode estar porvir. Estes instantes acontecem. É o encantamento que respiramos. Em algum lugar, existe. Vem de dentro e, às vezes, vemos.

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Daniel Russell Ribas
 é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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