Uma Ponte sobre o Atlântico [Marcelo Tacuchian]

Posted on 12/10/2019

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Heróis do mar, nobre povo

Nação valente e imortal

Estes são os dois primeiros versos do hino nacional português. Sendo um país com 59% das fronteiras viradas para o mar (os outros 41% cutucam os hermanos espanhóis), não é de se estranhar a relação íntima e apaixonada de Portugal com os oceanos. A culinária, a brisa constante e a idolatria pela época dos descobrimentos são testemunhas disso. Acho poético dizer que o próprio Brasil é fruto desta história de amor.

Em um livro quase que desconhecido, intitulado “Os Lusíadas”, um tal de Camões descreve o Cabo da Roca, extremo ocidental da Europa continental, como o “ponto onde a terra se acaba e o mar começa”. Ou seja, até quase o fechamento do século XV, Portugal estava localizado, literalmente, no fim do mundo.

Se eu tivesse produzido esta crônica na idade média, iniciaria o texto de maneira mais grandiloquente e apelativa do que o caolho fez: “Este material, caros leitores, foi escrito in loco onde Judas perdeu as botas. Vejam bem, a oeste de mim, não existe mais mundo. A partir daqui meus olhos só conseguem observar o infinito inalcançável com suas bestas escondidas sob os mares.” Com essa isca, tenho certeza de que o texto iria viralizar no Facebook.

Mas, como vivemos no século XXI (pelo menos alguns de nós), nos mapas eurocêntricos com que estamos agora acostumados, Portugal foi promovido, ironicamente, para o centro do mundo. No entanto, teoria freudiana profunda minha, nos portugueses persiste ainda um sentimento de isolamento e necessidade de cruzar águas para chegar a algum outro lugar. Terão eles um inconsciente reprimido do chulé de Judas?

Psicanalistas, com tristeza, compreendo a decisão de vocês em parar de ler o texto neste ponto.

Exemplos do gosto português em atravessar águas são as diversas pontes que encontramos por todo o país. Como destaques, podemos citar as icônicas 25 de abril, em Lisboa, e a Luiz I, no Porto. A lisboeta possui o maior vão suspenso de uma ponte rodoferroviária da Europa e a Luiz I carrega a lenda do orgulhoso povo portuense ter retirado o “Dom” de antes do nome do Rei por este não ter comparecido à inauguração da obra.

No entanto, a minha ponte preferida de Portugal é a pequenina e quase que imperceptível ponte de Santa Marta, em Cascais. Com não mais que cinquenta metros, é a única do mundo que cruza o poderoso oceano Atlântico.

Não, caros leitores, não se trata de mais uma afirmação apelativa para esta minha crônica rivalizar com os escritos do Luisinho (de Camões).

Ao contrário de Lisboa e do Porto, que margeiam rios, Cascais é banhada pelo Atlântico. Entre a marina e o farol de Santa Marta, existe uma pequena entrada do oceano que avança terra adentro. Por não ter a grandiosidade de uma baía ou de um golfo, batizei, de forma solene, este novo acidente geográfico como uma “nesga d´água”. Algo pequenino e aconchegante. Acho que combina com Portugal.

Geógrafos, por favor não abandonem o texto neste ponto. Só faltam mais dois parágrafos!

Depois de expor todo meu rigoroso conhecimento acadêmico – psicanalítico e geográfico – sobre esta questão, fui obrigado a fazer uma pesquisa e parece ser polêmica a afirmação que a ponte de Santa Marta é a única que atravessa o Atlântico. Alguns dizem que a ligação entre a Dinamarca e a Suécia seria também, tecnicamente, uma construção que consegue a mesma proeza. Outros sugerem que existiriam mais exemplos assim, inclusive no Brasil. Na minha opinião, são fake news.

Continuo tendo a certeza de que Portugal é o único país onde se pode cruzar o Atlântico a pé.

Ponte de Santa Marta em Cascais sobre o oceano Atlântico

Posted in: Crônicas