Epígrafes em prosa [Rubem Penz]

Posted on 11/10/2019

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A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer. O que importa é ouvir a voz que vem do coração. Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou? Coisa mais bonita é você, justinho você. Lava roupa todo dia, que agonia. Quando eu morrer, me enterrem na lapinha. Quantas noites não durmo a rolar-me na cama? Dinheiro na mão é vendaval na vida de um sonhador.

Galo cantou às quatro da manhã, céu azulou na linha do mar. Minha pedra é ametista, minha cor, o amarelo. Tira o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor. Tem muita gente por aí que está querendo levar uma vida de cão. Eu não vou mais trabalhar, só vou criar galinhas. Ama teu vizinho como a ti mesmo, mesmo que ele seja moço, mesmo que ele viva a vida que você não pode. Hoje vou tomar um porre, não me socorre que eu tô feliz. Uma lava outra, lava uma, lava outra, lava uma mão.

Quando será o dia da minha sorte? Sei que antes da minha morte, eu sei que este dia chegará. Boemia, aqui me tens de regresso. É o bonde do Dom que me leva, os anjos que me carregam, os automóveis que me cercam. Eu vi dois sóis num dia e a vida ardia sem explicação. De noite eu rondo a cidade a te procurar, em encontrar. Vou voltar na primavera, era tudo o que eu queria. De close em close, fui perdendo a pose até sorrir feliz. Eu vejo grana, eu vejo dor no paraíso perigoso que a palma da tua mão mostrou. Não quero luxo nem lixo, quero saúde pra gozar no final.

Em sete de outubro recém passado comemoramos o Dia do Compositor Brasileiro – efeméride que me toca, sem dúvida. E, para provar o apreço, transcrevi acima as epígrafes dos capítulos dos livros Santa Sede 2011, 12 e 13 sem sequer alterar a ordem original em que foram publicados. Parece contarem uma história, não é? Trabalho coletivo realizado no agosto de cada um dos anos. Eis a magia da música: ela existe para contar a nossa história. Muitos de vocês reconheceram grande parte dos fragmentos e, neles, reconheceram-se. Independentemente do que digam, a verdade precisa ser recomposta: a música brasileira é uma das mais criativas, ricas e belas do mundo.

Parabéns, compositores!

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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